O Manek era enorme. A criatura devia ter quase dois metros de altura e uns quatro de comprimento. O corpo do réptil era coberto por uma espessa camada de escamas negras e brilhantes. Das costas couraçadas nasciam longos e afiados espigões, idênticos aos chifres que nasciam mesmo acima dos olhos amarelos. O focinho do Manek era comprido e afunilado, com uma série de dentes amarelos a sobressaírem dos maxilares.

A criatura fitou o humano e, sobre as quatro patas munidas de afiadas garras, lançou um rugido e correu na sua direcção.

Irus levantou-se num salto e lançou-se em corrida por entre as estruturas de cristal. O Manek seguiu-o, partindo os cristais com os chifres. Apesar de raros, aqueles lagartos eram conhecidos por serem extremamente territoriais.

Com a criatura a ganhar terreno, Irus esgueirou-se por uma passagem estreita. As paredes eram rocha sólida e o Manek não seria capaz de o seguir. Só ao virar da curva é que percebeu o erro que acabara de cometer: era um beco sem saída. Voltou para trás, mas antes que pudesse dar um passo, um jacto de ácido entrou pela passagem.

Instintivamente, Irus usou a energia que o rodeava para criar um escudo, protegendo-se do líquido. As paredes rochosas em seu redor borbulhavam, estavam cobertas de espuma libertada pelo contacto com o ácido. O Manek voltou a soltar mais um rugido e, ao aperceber-se de que o humano ainda se encontrava no interior, voltou a lançar um novo jacto de ácido. Irus voltou a erguer o escudo.

O duelo durou quase uma hora. Encurralado, o aprendiz de Roul não teve outra opção senão esperar que o Manek desistisse. Protegeu-se do ácido e aguardou, enquanto a criatura investia com os chifres contra a rocha. Por fim, o cansaço acabou por levar a melhor, e o réptil gigante deitou-se junto à entrada do beco.

Irus avançou lentamente pela passagem. Junto à entrada, o enorme corpo do Manek repousava. A criatura respirava profundamente, como se estivesse a dormir. Quando teve a certeza de que era seguro sair, o aprendiz esgueirou-se por entre as rochas, escondendo-se entre os cristais.

Afastou-se com cuidado, combatendo o impulso de correr em direcção à entrada da câmara. Por duas vezes julgou que o Manek ia acordar, a primeira quando estilhaçou um pouco de cristal com a bota e a segunda quando a criatura se remexeu durante o sono.

Estava já a poucos passos da entrada da câmara quando ouviu um toque agudo. Não detectou a origem do som a primeira vez que o ouviu, mas da segunda não teve dúvidas do que se tratava. Procurou os óculos de protecção e retirou-os do bolso.

Deitando por entre os cristais, o Manek começou a regressar do sono profundo. O toque agudo dos óculos preenchia o interior da câmara.

Com o dispositivo nas mãos, Irus tentou desesperadamente desligar o aparelho, que continuava a sinalizar bateria fraca. Quando finalmente conseguiu, sentiu o chão tremer. Sem se dar ao trabalho de olhar para trás, correu na direcção da saída câmara.

O Manek avançava em corrida atrás do humano, investindo com os chifres contra as estruturas de cristal que lhe bloqueavam o caminho.

Irus correu até alcançar o topo da escadaria. A entrada para a câmara era estreita, pelo que a criatura não seria capaz de a atravessar. Contudo, desceu as escadas a passo apressado. Quanto mais depressa saísse do território do Manek, melhor.

Ia já a meio da escadaria quando o impensável aconteceu. O Manek investiu contra da rocha e quebrou-a, alargando a passagem da câmara. Em fúria, a criatura avançou em direcção a Irus, preparando-se para investir.

Com um lagarto gigante no seu encalço, o aprendiz de Roul não teve outro remédio senão correr pela vida. Recolheu a energia que o rodeava e direccionou-a para os seus próprios músculos, aumentando a velocidade da corrida. Sem sítio onde se esconder, era a sua melhor hipótese de escapar à ira da criatura.

Passou em grande velocidade pelas estátuas ao fundo da escadaria, que ficaram desfeitas em pedaços quando o Manek investiu contra elas.

A poucos metros do precipício e com a besta no encalço, Irus não teve escolha. Ou saltava rapidamente, ou morria. Com a adrenalina a correr-lhe no sangue tornava-se complicado encontrar a paz de espírito ideal para se focar, mas a verdade é que se queria ser um Roul, não podia estar sempre dependente do ambiente que o rodeava para usar as suas habilidades. No campo de batalha ninguém ia esperar que ele se concentrasse antes de disparar.

Calou as dúvidas que voavam pela sua cabeça e focou-se na tarefa que tinha em mãos. Deixou que a energia lhe inundasse o corpo e percorresse cada célula do seu ser. De seguida, sem hesitar, lançou-se no abismo num salto mal calculado.

Caiu de cabeça do outro lado do precipício. No último instante colocou os braços e as mãos entre o rosto e a rocha do chão. Sentiu o ardor quando a pele foi arrancada das palmas das mãos e cotovelos. Levantou-se num salto, pronto para continuar a fugir.

O Manek soltou um rugido de fúria. A criatura estava do lado oposto do abismo, não tinha saltado. Lançava jactos de ácido na sua direcção, numa tentativa de intimidar Irus.

Sem querer abusar da sorte, o aprendiz de Roul virou costas e caminhou em direcção à saída da caverna. Quando alcançou o exterior, a tempestade de neve tinha amainado.

Tirou a mochila das costas e abriu-a, retirando o cristal do interior. Sorriu. Depois de tantos anos, tinha passado o derradeiro teste. Quando voltasse ao templo teria de mostrar o cristal ao mestre Ches. Depois disso, quando forjasse a lâmina da sua espada com aquele cristal, teria lugar uma cerimónia no grande salão, onde lhe seria atribuído o título de Roul.

Voltou a guardar o cristal e a colocar a mochila às costas. Ainda tinha de descer a montanha antes de poder celebrar.

3

Anúncios