O vento soprava forte, transportando os flocos de neve que caiam do céu. A tempestade piorara nas últimas horas, era cada vez mais difícil ver o caminho. Irus apertou o casaco contra o peito e puxou o gorro para lhe tapar o rosto. Avançou pelo manto branco rumo ao seu destino, como tantos outros aprendizes de Roul antes dele.

Irus nunca fora um jovem como os outros. Aos dez anos manifestara pela primeira vez os seus poderes. Era capaz de mover objectos com a mente, movia-se mais rápido que qualquer outra pessoa e, por vezes, conseguia escutar o pensamento dos outros. A sua família, pobre e crente nos ensinamentos da Igreja, entregou-o aos sacerdotes, com medo de represálias. Com apenas onze anos tinha sido marcado para ser queimado vivo à porta do templo da cidade.

O vento gelado soprou, arrastando mais neve. A tempestade adensava-se. Era impossível prosseguir sem ajuda. Irus levou a mão ao bolso do casaco e retirou os óculos de protecção, colocando-os no rosto. Com um clique no botão lateral do visor, o mundo ganhou uma tonalidade esverdeada. Com os óculos activos conseguia ver o caminho através do temporal.

Recordou-se da primeira vez que vira aquele tipo de tecnologia. Era Verão e o Sol do meio-dia brilhava bem alto. Irus estava acorrentado e suspenso pelos pulsos num poste metálico. Em seu redor, na praça em frente ao templo da cidade, a população reunira-se para assistir à execução de mais um herege, um menino de onze anos, ele.

O suor escorria-lhe pelo corpo enquanto os sacerdotes se preparavam para atear fogo à madeira. Na fila da frente, para assistir ao espectáculo, estava a sua família. Gritara, implorara por ajuda, mas os seus pais e irmãos limitaram-se a desviar o olhar. Ele já não era um deles, era uma aberração, um atentado à ordem natural imposta pelos Inai.

Nisto, uma aeronave sobrevoou o local a baixa altitude. O som das quatro pás das hélices a cortar o ar era ensurdecedor. Desceu na vertical e aterrou na praça, obrigando a população a desviar-se. Quando a escotilha se abriu, três homens de armaduras prateadas com ornamentos dourados saltaram do interior. Os soldados da Igreja tentaram impedi-los, mas os desconhecidos desembainharam as espadas com lâminas de cristal, duas azuis e uma encarnada como o sangue. Os homens eram Rouls.

Movendo-se a uma velocidade sobrenatural, dois dos forasteiros imobilizaram os guardas da Igreja. O terceiro caminhou na sua direcção. Ao verem o homem aproximar-se, os sacerdotes fugiram para o templo. Com um golpe da lâmina encarnada, o Roul libertou-lhe os pulsos. Irus jamais esqueceria o seu salvador, o mestre Ches.

Não tardou para que chegassem mais soldados da Igreja vindos do templo. Ches esticou a mão em direcção a Irus e deu-lhe uns óculos de protecção.

– Coloca-os e não os tires – ordenou.

Irus obedeceu.

Um dos Roul lançou uma granada de cegar. Uma luz brilhante cobriu toda a praça, cegando momentaneamente os presentes. Porém, os Roul, tal como Irus, usavam óculos que os protegeram do brilho ofuscante.

Ches agarrou Irus pelas mãos e puxou-o para o interior da aeronave. Foi a última vez que viu a sua família, mas foi também o dia em que ganhou uma nova, os Rouls.

A camada de neve estava cada vez mais profunda. Irus deu um passo em frente e ficou subterrado até à cintura. Não podia avançar mais naquelas condições.

Fechou os olhos e acalmou a mente. Ouviu o vento soprar-lhe aos ouvidos, sentiu a neve a cair-lhe no rosto. Aos poucos, fechou a mente aos estilos do corpo, unindo-se com a natureza. Conseguia sentir a energia fluir em seu redor, pela neve, pelas pedras, pelas árvores. Tudo era energia.

Abriu a mente e o corpo, deixando que aquele poder que o rodeava o invadisse. Um arrepio percorreu-lhe o corpo, sentia-se mais leve, desperto. Era a energia a difundir-se pelos músculos. Focou a mente no caminho que se estendia à sua frente, barrado pelo manto de neve. Concentrou a energia, focando-a, comprimindo-a ao ponto de sentir que o peito estava prestes a explodir. Abriu os olhos e libertou-a.

Uma onda de energia percorreu o caminho com uma força demolidora, abrindo caminho por entre a neve, desviando-a. As rochas e árvores que entrou pelo caminho ficaram feitas em pedaços.

Irus respirou fundo. Sentia o corpo dormente de ter canalizado tanto poder. Olhou para o caminho e sorriu. Este estava agora completamente desimpedido.

Avançou sem dificuldades pelo carreiro. Passou por entre um rochedo que tinha partido em dois e aproximou-se da entrada da caverna escondida entre as rochas. Na pedra estava marcada a insígnia da Lâmina de Cristal, o símbolo da ordem Roul. Tinha alcançado o seu destino.

Sem perder tempo, entrou na caverna.

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