Simon acabou por se esquecer que tinha que fazer a review para o site de jogos, cujos elementos o tentavam infrutiferamente contactar por e-mail, telefone e mesmo por correio normal. Foi-se também esquecendo de se lavar, e só ia à casa de banho quando era acometido de dores; não que tivesse muito para deitar fora, já que também quase não comia nem bebia. Quanto a dormir, bem, volta e meia apagava-se, com o comando da consola de jogos na mão, apenas para recobrar os sentidos algum tempo mais tarde, tendo de retomar o jogo a partir do início. Não que lhe fizesse muita diferença, jogara tanto que na prática quase conseguia derrotar a miríade de oponentes com os olhos fechados, excepto o seu antagonista final, que parecia troçar dele. Derrotava todos os outros a uma velocidade recorde, apenas para se deparar com Hellmann, o muro que o impedia de alcançar a vitória completa.

Melissa tentava cuidar dele, mas sem sucesso. Quase sempre a comida que lhe levava ficava intocada, e quando se atreveu a sugerir que ele estava completamente viciado, só não houve gritaria (ou pior) porque Simon estava fisicamente debilitado.

– És exactamente igual àqueles idiotas dos médicos que estavam feitos com os meus pais, a dizer que os jogos eram um vício e que eu precisava de tratamento. O que é que eles sabem? O que é que tu sabes, minha noob de merda? Só queres impedir-me de ser feliz, como todos os outros! – sibilou ele, levando a que ela saísse a chorar e aterrada com a sua atitude paranóica.

 

Finalmente, chegou o dia em que Melissa não conseguiu entrar em casa; pelos vistos, Simon conseguira ter tempo e iniciativa para mandar mudar a fechadura. Tentou tocar à campainha, bater à porta, telefonar, enfim, tudo menos tentar arrombar a porta. Sem sucesso. Magoada e preocupada, ficou a pensar no que fazer com a sua vida… Amava verdadeiramente o rapaz, mas aquela espiral autodestrutiva tolhia-a, queria estar com ele e ajudá-lo, mas sentia não ter forças nem coragem.

Chorou todo o caminho de regresso a casa.

 

No seu apartamento, Simon chegara, aparentemente, à fase alucinatória que aguarda todos aqueles que se privam de sono e de alimento. Sempre que derrotava um oponente, ficava com a clara ideia que ele se sentava ao seu lado no sofá, a contemplar o espectáculo de carnificina digital providenciado pelo jogador à medida que progredia em direcção ao boss final. Assim, ao longo de uma partida, a sala enchia-se não só dos oponentes concorrentes do torneio, como dos seus mandatórios sequazes – clones, robôs e todos os outros clichés expectáveis. Simon podia jurar que o Max Mangara, um dos tenentes de Hellmann, lhe bebera as cervejas todas do frigorífico.

Curiosamente, os seus companheiros eram silenciosos, raramente comentavam o jogo, não o apoiavam mas também não o desincentivavam.

Limitavam-se a ver o que ele fazia.

E o que ele fazia era levar porrada do overlord Hellmann.

Mais que uma vez, quando perdia a meros instantes de atingir o seu objectivo, o comando da consola voava pela sala, dir-se-ia mesmo mais propulsionado pelos palavrões do jogador do que pela sua mão. Felizmente, Simon tinha mais que um comando, pois os aparelhos acabavam por sucumbir aos maus tratos.

 

Até que, por fim, o próprio estado alterado de Simon lhe providenciou a solução. Pareceu-lhe ver duas vigas com cores diferentes a suportar a plataforma onde se iniciava o duelo com o vilão; mais concretamente, cada viga tinha a cor de um dos seus olhos. Percebendo que até a consola troçava dele, pela primeira vez ignorou Hellmann e descarregou todas as munições contra as vigas…

…quebrando-as, causando a queda da plataforma e do seu oponente. Instantaneamente, a barra de energia do personagem caiu a zero, isto enquanto ainda restava alguma vida ao avatar de Simon.

 

Conseguira! Não conseguia acreditar! Conseguira, e com um truque tão básico! Como é que nunca reparara que as barras eram destrutíveis? Parecia tão fácil, agora, que nem fazia sentido.

Colapsou no sofá. O cansaço esmagou-o, por fim. Os seus companheiros de sala desapareceram. Obnubilado, mal se apercebia dos créditos finais que rolavam no ecrã do televisor; o comando da consola caiu-lhe das mãos.

Não conseguia manter os olhos abertos, a visão estava desfocada e fazia parecer que as letras no ecrã ondulavam. Sentia-se a desmaiar, quando aconteceu algo inesperado…

– Simon! – Era a voz de Hellmann.

“Devo estar pior que julgava”, pensou o jogador. Mas continuou a ouvir…

– Simon. – A voz saía do televisor. Observou, enevoado, o rosto do seu inimigo, que parecia fitá-lo, enquanto falava com ele. – Parabéns, Simon. Mostraste dedicação suficiente para me destruir. Mais ninguém conseguiu. Desistiram todos antes de atingirem o… chamemos-lhe… o estado de espírito certo para me derrotar.

O rapaz estava atónito. Tentou desligar o televisor, mas o controlo remoto não obedecia. Ou talvez fosse mesmo a sua mão que não funcionava.

– Simon, não faças isso… ainda não recebeste o prémio que te prometi no início do jogo. Não estás curioso para saber de que se trata?

 

Quando Melissa finalmente encontrou coragem para pedir ao superintendente do prédio que lhe abrisse a porta com o duplicado da chave, ficou desapontada por não encontrar Simon em casa.

A sala estava desarrumada e fedorenta. Viu o comando da consola caído no chão ao pé do sofá quando atravessou a sala em direcção ao quarto.

Ele não estava mesmo no apartamento. Bem, pelo menos parecia que fora apanhar ar…

Decidiu esperar por ele, tinham muito que falar. E não ia desistir de o obrigar a tratar-se.

 

Passaram horas, e nada de Simon. O telemóvel dele estava em cima da mesa, e ainda por cima descarregado, por isso não adiantava tentar ligar-lhe. Abrira as janelas todas para arejar, e o ar estava ligeiramente mais respirável.

Olhou para o comando da consola de jogos e decidiu que, já que ia ter de esperar, mais valia entreter-se com alguma coisa.

Ligou a consola e o jogo arrancou, iniciando a sequência de apresentação… sequência essa que estava diferente daquilo que ela se lembrava…

O vilão do jogo não tinha a cara do programador… Não, tinha um rosto muito mais familiar, um rosto que Melissa aprendera a amar. Quando viu que o vilão até tinha um olho de cada cor, não conseguiu impedir-se de gritar.

 

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