Mal chegou a casa, Simon rasgou o envelope que continha o disco. Ansiava há semanas por lhe deitar as mãos. Mal dormira desde que fora escolhido como reviewer para o último título da série The Gun Masters. E este prometia ser especial, a julgar pelos rumores, muito mais exagerados que o que era costume neste tipo de produtos.

Tremia de excitação. Quando fora seleccionado para a análise antecipada do jogo antes do lançamento, subira ao céu. Provavelmente o facto de ser o tipo que mais trabalhava num dos principais sites de testes e críticas a jogos ajudara. Trabalho? Era, isso sim, o emprego de sonho para um tipo como ele. Fazia o que gostava, sem horários, em casa… Só tinha que escrever uns textos ou fazer uns vídeos sobre os jogos e o dinheiro ia aparecendo. Não estava rico, mas não precisava: Tinha o que lhe interessava. Podia jogar até cair para o lado, o que de vez em quando acontecia literalmente. Ainda se lembrava da primeira vez em que, adolescente, ficara no quarto vários dias a fio, quase sem dormir nem comer, a jogar um MMORPG e acabara hospitalizado…

Enquanto colocava o disco na consola, ouviu a porta do apartamento a abrir. Era Melissa, gamer girl e também sua namorada. Ou algo como isso, tanto quanto podia considerar ter esse tipo de relação com alguém.

Melissa ficara meio maluca quando lhe falara do jogo e exigira estar presente quando fosse inaugurá-lo. Provavelmente ia querer jogar, mas estava enganada se achava que ele ia deixar… Afinal, o reviewer era ele!

– Ahá! – exclamou a rapariga. – Então esse é que é o jogo lendário?

– Yep – anuiu ele, constatando para si próprio que preferia estar sozinho com o grande jogo.– O derradeiro Gun Masters.

– Aquele em que o programador principal morreu a fazer o jogo?

– Isso é uma das lendas que ronda o projecto, Mel… Corre um monte de rumores totalmente disparatados sobre ele. Há quem diga que o programador foi digitalizado e integrado no código do jogo, outros dizem que fez um pacto com o Diabo para tornar o jogo invencível… Enfim, tretas. O único facto oficial é que o jogo tem uma inteligência artificial dita invencível e que o programador desapareceu quando concluiu o projecto.

– Talvez tenha sido raptado por extra-terrestres! É uma hipótese tão boa como as outras – aventurou-se Melissa, tentando ser engraçada. Era uma característica dela que por vezes irritava Simon. Este fitou-a, sabendo que o seu olhar a desconcertava. Afinal, tinha um olho de cada cor, algo que sempre lhe valera epítetos como “semáforo”, o que ajudara ao seu isolamento social e provavelmente potenciara o seu vício em videojogos.

O jogo arrancou, apresentando uma sequência de introdução fotorrealista em que um Overlord, o inimigo principal do jogo, e que tinha nem mais nem menos do que a cara do programador desaparecido, desafiava o jogador a participar num torneio letal em que enfrentaria uma mini-legião de inimigos até chegar a si. Se o derrotasse, o prémio misterioso prometia mudar a vida ao jogador. Após o desfile dos inimigos que iria enfrentar, ou seja, os participantes do torneio, apareceu o ecrã de opções.

“Enfim,” pensou Simon, “mais uma história de treta. Também, quem quer saber da história? Vamos mas é ao tiroteio!”

Inconscientemente, agarrou o comando com mais força e começou a jogar.

Melissa observou-o de forma apaixonada enquanto enfrentava, aos tiros, em cenários tão variados como cidades submarinas ou bases em Marte, múltiplos inimigos, cada vez mais matreiros, nem sempre com sucesso.

– Ah, eles são bons! – exclamou Simon, veterano desses desafios. – Mas não bons o suficiente!

 

E, realmente, um a um, partida após partida, os oponentes sucumbiam à destreza do jogador. Revólveres antigos, armas laser, rifles de plasma, metralhadoras Uzi, pistolas de pulso electromagnético… havia de tudo um pouco para escolher no arsenal do jogo, e Simon de tudo usava para, entusiastica e elegantemente, distribuir a morte virtual, nível atrás de nível, acumulando os mandatórios troféus do jogo.

Por vezes o jogo encravava, alturas em que Simon usava linguagem que faria corar os frequentadores dos bares da zona portuária da cidade, antes de reiniciar a consola e retomar o desafio. Ia ter de mencionar todos os problemas com que se deparasse, afinal de contas. Não era pago para jogar, infelizmente.

 Por fim, Simon chegava sempre ao boss final, o General Nero Hellmann, o oponente supostamente imbatível que usava o rosto do programador mítico.

Ao longo dos dias seguintes, sempre que chegava a esse nível, invariavelmente levava uma tareia. O Hellmann era sem sombra de dúvida um boss duro de roer. Simon despejava todos os truques, manhas e habilidades do seu repertório, e a tudo o seu inimigo respondia, quase displicentemente. Que frustração!

Mas Simon vencera inúmeros jogos, não só first person shooters, mas jogos de quase todos os géneros possíveis e imaginários. Não havia de ser aquele sacana a derrotá-lo, por muito bem programado que tivesse sido.

 

A tarefa não era fácil. Os dias transformaram-se em semanas, e Simon praticamente não fazia mais nada para além de jogar. E sempre, mas mesmo sempre, era derrotado no final. Mesmo quando estava com a vitória quase garantida, Hellmann (que nome apropriado, ele era verdadeiramente infernal) conseguia dar a volta e destruí-lo. Ah, e o sistema de créditos limitados à moda antiga obrigava-o invariavelmente a voltar ao início do jogo, em vez de poder retomar o desafio imediatamente antes de enfrentar o seu némesis, contrariando a tendência actual do universo dos jogos, em que praticamente os jogadores eram levados ao colo até ao fim do jogo, ou, pior ainda, podiam pagar para desbloquear níveis.

Não, com o The Gun Masters isso não acontecia, os criadores eram da velha escola e impunham um desafio.

Mas talvez tivessem exagerado, achava Simon, com as mãos a tremer. O Hellmann era demasiado difícil, e isso era um conceito quase alienígena para o jogador.

Reviewer 1

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