O agente levantou-se da cadeira e dirigiu-se à janela do quarto no motel orbitário; contemplou a Terra desta era, um antro de poluição radioactiva, e questionou-se se valeria a pena tanto esforço para a salvar. Logo a seguir recriminou-se pelo pensamento, era todo o universo que estava em jogo. Destruíra a obra da sua vida, matara, não pior que isso, anulara completamente a existência dos seus colegas e apurava a melhor maneira de fazer o mesmo consigo próprio – e isso não podia ser em vão. Devia-o aos extintos agentes com quem trabalhara tanto tempo.

Passados alguns minutos o ChronoVAC acendeu o ecrã e apitou:

– A avaliar pela degradação telomérica e em comparação com o ritmo de desgaste genético considerado normal para alguém do teu sexo e idade, consigo estimar com 95% de certeza que a mutação foi despoletada entre os 15,53 e os 16,88 anos de idade. Ocorre-te algum evento especial nesse período da tua vida?

– Não – a resposta foi tão seca como despojada de esperança – Provavelmente alguma anomalia escondida, ou até mesmo algum viajante no tempo que se cruzou comigo. Isto é inútil. Mais vale saltar para a minha infância, ou para um tempo antes de eu nascer e resolver o assunto nessa época.

– Reforço que nada garante 100% de sucesso. O teu DNA pode ser encontrado por alguém e usado para pesquisa e produção de novos cronodeslocadores vivos; os teus pais podem ter, em conjunto ou separado, outro filho mutante. Nem sabemos, sem termo de comparação, de qual deles veio o material genético mutante, ou mesmo se foi uma mutação espontânea, ou…

– OK! Chega. Vou dar o salto, não aguento mais. Tenho que tentar, pelo menos, ou enlouqueço! Já destruí tanto para tentar salvar o resto que não posso dar-me ao luxo de não fazer nada! – meteu o computador num bolso, o desintegrador noutro, e sentou-se. Fechou os olhos uma vez mais e concentrou-se, tentando recordar uma era e um lugar. Sim, era mesmo isso! Relaxou e…

 

…abriu os olhos novamente. Olhou em redor e parecia tudo correcto. Se não se enganara, o ano era 1983 e materializara-se no pátio traseiro da casa onde vivia na época. O seu eu contemporâneo estava prestes a fazer 5 anos, e andava a coscuvilhar a casa à procura de presentes. Sabia que o seu pai outro dia entrara com um embrulho enorme, mas não sabia onde estava escondido. Esta era uma das suas memórias mais ternas da infância, e que lhe servira de farol no salto temporal.

Johnson espreitava pela janela da cozinha. Uma consulta ao ChronoVAC confirmara que a mutação não estava activa. O miúdo era seguro, pelo menos para já. O agente recuou e sentou-se nas sombras junto aos anexos, num canto em que ficava escondido, pelo menos desde que não o procurassem activamente. Sentia-se fraquíssimo, a viagem drenara-o ao ponto de se sentir doente. Sentia que se tentasse outro salto, pelo menos tão cedo, morreria. Era algo intuitivo, mas tinha a certeza do que aconteceria.

O pequeno Emmet saiu para o quintal. Estava a espreitar para a cave pela janela, numa tentativa de perceber se o seu Santo Graal de aniversário estaria lá oculto.

O seu eu futuro contemplava-o. Talvez, só talvez, ainda houvesse esperança. Não queria morrer. Já perdera a Agência, e se sobrevivesse ia sofrer um inferno de culpa pelo que fizera, mas mesmo assim não queria morrer. Talvez pudesse proteger o miúdo, talvez o ChronoVAC conseguisse apurar o ponto em que foi exposto, evitar a exposição e salvar-se. Poderia ter uma vida normal, e até conseguir de alguma forma resgatar a Agência, ou mesmo…

Os seus pensamentos foram interrompidos pelo computador, que colocara em modo silencioso. Vibrava e emitia uma luz de alerta no seu ecrã. Tendo cuidado de apenas usar o teclado virtual, para a sua voz não alarmar o Emmet-de-quase-5-anos, indagou o que se passava. A resposta foi terrível:

“Alerta: aumento de neo-anomalias em formação em taxa de 264,4% no espaço-tempo circundante no raio de 105,7 Km e de 2,3 anos”

“Causa?”, teclou.

“Mutação a activar-se em Emmet Johnson, presentemente de quatro anos e 363 dias de idade.”

“Como é possível?”, revoltou-se o agente.

“Exposição a dose elevada de taquiões, em concordância com modelos simulados.”

“Nesta idade? Calculaste que a activação só ocorreu na adolescência.”

“Sujeito submetido a dose de radiação taquiónica no dia de hoje.”

“Fonte?” questionou Johnson, embora já adivinhasse a resposta.

“Tu.” O computador parecia cruel de tão lacónico.

Johnson respirou fundo, tentando resignar-se. Não havia saída. Mesmo que conseguisse ter forças para saltar mais uma vez sem morrer (bastariam umas horas!), o próprio salto estragaria tudo. Que tal isso para um paradoxo?

 

Só havia uma coisa a fazer, então. E tinha de ser feita antes que a mutação se completasse e as anomalias se consolidassem. Imaginou que só teria momentos.

Apoiando-se a uma parede, ergueu-se a custo. Empunhou o desintegrador, apontando-o na direcção de si mesmo, algo que não deixava de ser confuso. O seu eu mais novo continuava alheio à sua presença. Talvez fosse melhor assim.

Esperava que a solução fosse a correcta. Provavelmente nunca iria saber. Ou, se soubesse, seria porque tinha falhado e continuava a existir, talvez resgatado de uma linha divergente causada pelas anomalias. Ou talvez não, talvez o universo colapsasse.

Este tipo de considerações sempre lhe fizera doer a cabeça, e agora não era excepção. O ChronoVAC mantinha-se convenientemente mudo.

Esperando pelo melhor, puxou o gatilho.

Nó Górdio parte 4

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