Johnson passou toda a noite (ou o que passa por noite num sítio fora do espaço e do tempo) a reflectir sobre o que fazer.

Começou a considerar a destruição da Agência e de todos os equipamentos apreendidos com um nulificador cronológico, basicamente eliminando-a não só no espaço como em toda a linha temporal, teorizando que dessa maneira todos os dispositivos capturados no passado, presente e futuro seriam eliminados.

Simulou o procedimento no ChronoVAC-1, tanto incluindo como eliminando das equações as redundâncias paradoxais, apenas para obter resultados inconclusivos.

“Só há uma maneira de descobrir”, decidiu.

Descarregou todos os cálculos do ChronoVAC-1 para o ChronoVAC portátil, dado que em breve seria a sua única ligação ao processo, e dirigiu-se ao Armazém.

 

Uma vez lá, encontrou a agente Sonja Whitmann a inventariar as últimas apreensões.

– Olá, Sonja – cumprimentou ele – Que temos aqui?

– Oh! Bom dia, Agente Johnson! – a emoção da novata era notória – Nada de especial, receio. Um Procrastinador, vários relógios… curiosamente, um deles não faz deslocação no tempo, apenas faz com que o utilizador fique parado entre duas fracções de segundo. Está partido, estava a ser usado por um palerma qualquer para assaltar bancos e ele deixou-o cair ao chão. Estivemos quase para deixar o sujeito entalado fora do tempo, mas achámos melhor prendê-lo. Está no bloco de celas D.

– Hmm, sim, estou a ver. O que foi feito do nulificador cronológico que apreendemos àquele terrorista do ano 2733?

– A bomba mata-tempo?

– Sim, se lhe quiser chamar assim.

– Creio que está no laboratório. A equipa de pesquisa tem um bocado de medo de lhe mexer, acham que o podem detonar.

– E têm a sua razão. Preciso de o ver, estive a analisar o relatório sobre o aparelho e falta-me informação. Sabe se está alguém no laboratório?

– Não sei, acho que estão todos a babar-se à volta da cabina telefónica que a equipa do Ryker trouxe.

“Perfeito”, pensou Johnson, dizendo, no entanto:

– Claro que estão, nem esperava outra coisa deles. Bem, eu cá me desenrasco.

 

Minutos depois estava no laboratório, que se encontrava efectivamente deserto.

Verificou uma última vez o ChronoVAC portátil, ia precisar dele para navegar no espaço-tempo apenas com a sua habilidade natural, dado que não ousava levar nenhum outro dispositivo para fora da Agência.

O detonador do nulificador era estupidamente simples de se armar, para algo construído com tecnologia tão avançada. Bem que os técnicos podiam ter medo da coisa. Odiando-se pelo que estava a fazer (ia destruir tanto trabalho, e principalmente, matar tanta gente que tanto dedicara à preservação do contínuo), colocou no temporizador um intervalo de 15 segundos e fechou os olhos…

 

A deslocação temporal que constituía o seu dom natural era atingida através de relaxamento. Desde que descobrira a sua habilidade dedicara muito tempo e esforço a controlá-la. Inicialmente dava saltos aleatórios quando estava nervoso, mas após muito treino de meditação, dava saltos controlados e com serenidade.

Desta vez, o exercício era diferente: não um salto para determinado ponto do espaço-tempo, mas para fora dele, e com o cuidado de não ocupar o mesmo “não espaço” e “não tempo” da Agência.

Deixou a base para trás, por assim dizer, e ficou no nada. Consultou o portátil, mas o resultado foi no mínimo exasperante.

– Continuam a surgir anomalias – relatou o computador – Em menor número que antes, mas não cessaram.

– Mas eu destruí todos os aparelhos do contínuo!

– Todos os aparelhos, sim. Mas não todos os cronodeslocadores. Sobrou um.

Johnson amaldiçoou-se pela sua estupidez. Claro. Sacrificara tudo, provavelmente para nada. Enquanto existisse, iria sempre haver uma fonte de anomalias.

 

A situação era um autêntico nó górdio, o mítico nó impossível de desatar. Mas Alexandre, o Grande, arranjou uma solução alternativa, certo? No fundo, sabia o que tinha que ser feito. Após algum tempo a ruminar, acabou por enunciar a pergunta:

– ChronoVAC, qual é a maneira mais eficaz de me destruir? Desintegração total?

– Não possuo capacidade de processamento suficiente para analisar todas as variantes desse procedimento.

“Maravilha, é o que ganho por andar com um portátil. Devia era ter ficado na base com o computador principal”, pensou, embora o aparelho continuasse:

– Contudo, posso extrapolar que, mesmo com a desintegração total, enquanto tu existires em algum ponto do espaço-tempo, a situação poderá repetir-se. Tens que destruir toda a tua existência enquanto cronodeslocador.

– Mas nem sempre o fui – pensou alto – A minha habilidade só começou a manifestar-se na adolescência. Nunca percebi se estava latente ou se foi adquirida nessa altura.

– Devíamos analisar com dados recolhidos directamente.

 

Johnson concordou. Mas primeiro, havia que munir-se dos meios para levar a cabo a missão. Saltou até ao século XXIX a fim de obter uma pistola desintegradora; felizmente era uma era de anarquia e caos e não teve dificuldade em integrar-se no meio e obter uma arma no mercado negro. Necessitou, isso sim, de uma quinzena para repor as suas forças antes de saltar para trás, para a sua infância.

Nesse interregno aproveitou para pôr o computador a calcular algumas coisas, usando recursos de processamento extra “emprestados” a hardware contemporâneo. Nomeadamente, analisar a sua constituição física, até ao nível molecular. O resultado foi interessante.

– Aparentemente, eras portador de uma mutação que te permite usar e processar energia taquiónica; a mutação terá estado latente até uma exposição maciça a taquiões a ter activado. A partir desse ponto na tua vida, tornaste-te uma máquina do tempo viva.

– Consegues apurar o ponto em que isso aconteceu?

– Vou levar alguns minutos a processar a informação.

– Está à vontade.

Pousou o computador quando este apagou o ecrã, ficando um zunido como único sinal de funcionamento.

Nó Górdio parte 3 (2)

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