Num local isolado do tempo e do espaço, os dois homens materializaram-se numa sala de recepção repleta de monitores.

– Nunca me canso desta rotina de “polícia bom/polícia mau”, mas se calhar devíamos trocar um destes dias, não? – começou o mais velho.

– Talvez, mas não sei se consigo fazer a tua cara de mau, Johnson. Quer dizer, tu és o Emmet Johnson, Agente-mor e fundador da Agência de Correcção Espaço-Temporal; o maior agente de todos os tempos. O que não é um mérito fácil, dado que operamos ao longo de todo o tempo que existe! Caçar infractores está-te no sangue, e para isso é preciso ter um semblante implacável! Eu nem consigo manter a pose séria como tu e…

– Ok, Klaus, ok! Já percebi. Pára lá com a graxa! – protestou o mais velho, enquanto dava um murro brincalhão no braço do outro. – Eu sou o “Cão de Caça”, não é essa a alcunha? Parece que estou fadado a morder enquanto os outros ladram, ou não é assim? Bem, chega de conversa fiada, vamos ver se os outros fizeram alguma coisa de jeito enquanto estávamos fora ou se só tu e eu é que trabalhamos neste sítio.

 

Saíram da sala e atravessaram um dos corredores do complexo; as janelas de um dos lados permitiam vislumbrar o Armazém, um hangar onde eram armazenadas as “máquinas do tempo” apreendidas, ou seja, todos os dispositivos que permitiam deslocação cronológica e cujo uso indevido (ou seja, praticamente todo o uso dado a esses aparelhos) atraíra a atenção da Agência. A maioria era registado, analisado e posteriormente desmantelado, mas alguns deles, particularmente problemáticos, eram guardados e expostos à moda de troféus, para inspirarem alguns agentes mais novos. Era o caso de um automóvel prateado, criado por um fulano tresloucado que o equipara com um dispositivo cronodeslocador que tinha a particularidade de só se activar quando o veículo atingia uma certa velocidade (cerca de 140 km/h) e que estava estacionado ao lado de outro engenho, cheio de alavancas e mostradores, com uma roda gigante e ainda alguns pêlos de Morlock agarrados.

E uma nova aquisição, que Johnson não pôde deixar de notar com um misto de surpresa e orgulho – a maldita cabine telefónica azul! Finalmente apanharam-no, o grande némesis da Agência!

Johnson sacou do ChronoVAC portátil e viu a notificação do relatório da última captura, acompanhado de holofotos da máquina e do seu ocupante; havia um ficheiro extenso em anexo acerca do último, com detalhes de todas as suas “encarnações” (pelo menos doze conhecidas) e do seu povo de origem, uma raça de viajantes no tempo particularmente problemáticos que a Agência quase conseguira erradicar com manobras de bastidores. Para isso tinham provocado uma guerra temporal entre eles e aqueles outos alienígenas irritantes que andavam vestidos de tanque de guerra e que só conseguiam falar aos guinchos. “Ex-ter-mi-nar!”, pois, sim. Graças aos seus agentes infiltrados, os dois povos antagonistas é que foram praticamente exterminados, embora houvesse alguns elementos que teimavam em sobreviver e andar a bailar pelas correntes temporais, como o que acabava de ser capturado.

Verificou que fora a equipa de Ozymandias Ryker que conseguira a proeza; Ryker era um dos agentes mais promissores e a hipótese mais forte para sucessor de Johnson, quando se decidisse a aposentar, ou, mais provavelmente, quando morresse em serviço.

Entretanto, o ChronoVAC apresentou vários avisos relativos a uma tarefa de processamento particularmente complicada que Johnson iniciara há alguns dias, na sua contraparte não portátil, o ChronoVAC-1.

 

Dirigiu-se ao seu gabinete e fechou-se lá dentro.

– Relatório – solicitou secamente.

– Processei todas as variantes temporais processadas e corrigidas nas últimas missões – começou o computador, sintetizando uma voz masculina monocórdica – Houve um aumento efectivo de 291,3% de ocorrências nos últimos dez ciclos de vigilância.

291,3%? Johnson ficou alarmado. Um quase triplicar de casos! Notara um aumento, de facto, mas não se apercebera da gravidade do mesmo. O computador continuou:

– Esse aumento ocorreu essencialmente às custas de neo-anomalias, predominantemente pequenos objectos ou portais imbuídos de alguma forma de distorção taquiónica – o aparelho referia-se a objectos como o relógio que apreenderam, que funcionava quase como que por magia (para quem não conhecia a física envolvida) ou a anomalias fixas, como o portal que um sujeito utilizara uns tempos antes para tentar impedir o assassinato do JFK. Felizmente, nesse caso, o próprio corrigira a bodega que fizera, sem necessitar de uma intervenção assertiva. O mais preocupante, mesmo, era o autêntico brotar dessas anomalias que começava a deixar a Agência sem saber para onde se virar.

– E conseguiste encontrar a fonte dessas neo-anomalias?

– Sim. Há um gerador focal cuja presença intermitente ao longo do contínuo espaço-temporal faz aumentar a presença de distorções taquiónicas e, por conseguinte, de neo-anomalias. No presente ritmo, prevejo o início de disrupções maciças dentro de 23 ciclos, conduzindo à instabilidade irreversível do contínuo espaço-tempo dentro de 29 ciclos.

– E qual é o gerador focal? – questionou o agente, começando a sentir um ardor no estômago.

– Não é um “qual”. É um “quem”.

– E quem é o gerador?

– O Agente-mor Emmet Johnson – disse casualmente o computador – Tu.

Johnson quedou-se mudo no cadeirão. Sempre tivera uma afinidade especial para viagens no tempo, chegando ao ponto de dar pequenos saltos, normalmente apenas de minutos, sem recurso a nenhum dispositivo; já conseguira saltos maiores, uma vez de alguns anos, mas ficara completamente extenuado. Era uma habilidade que mantivera secreta, dado dar-lhe uma vantagem em campo, especialmente na captura de infractores perigosos. E o que os outros agentes não sabiam, não podiam revelar, mesmo que acidentalmente, às pessoas erradas.

E agora, isto.

Nó Górdio Parte 2 (2)

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