Donnie Gladstone olhou mais uma vez para a sequência de números no papel. Um papelzinho aparentemente comum, mas que iria mudar a sua vida de uma vez por todas. Bem, o papel e o relógio, em boa verdade.

Esperara semanas até não haver totalistas da Eurolotaria, não queria dividir o prémio com ninguém. Assim, era só puxar os ponteiros do bizarro relógio umas horas atrás, apostar nos números certos, e, zás!, milionário instantâneo!

Tivera o cuidado de ir para a cidade vizinha antes do salto no tempo, não queria cruzar-se com o seu eu passado. Bem, atendendo que o seu eu passado já congeminara o plano para enriquecer umas semanas antes, quando encontrou o invulgar aparelho, e que essa mesma versão passada (era estranho pensar no indivíduo que fora apenas horas antes como outra pessoa) já lera sobre o possível paradoxo de se encontrar a si próprio e destruir o universo, não devia haver problema. Ambos os Donnies iam evitar o contacto directo.

Se calhar essa história era treta, mas para quê arriscar? Especialmente quando estava a momentos de ficar podre de rico?

Gladstone, um mecânico automóvel de segunda categoria, nunca fora muito dado a filosofias, nem a qualquer actividade intelectual mais elaborada. Mesmo assim, à medida que fazia deslizar os ponteiros para trás e recuava no tempo, não pôde deixar de pensar se, quando fizesse a aposta, não deveria recordar-se de que alguém tinha ganho o prémio (ele próprio) em vez de não haver totalistas.

“Ora, se calhar isso faz parte de mudar o passado”, pensou, despedindo a preocupação. Mesmo que algo corresse mal, considerou ele, poderia sempre repetir a façanha em breve.

 

Estava enganado. Quando parou o salto retrocronológico (não que ele alguma vez conseguisse tirar esse termo da sua cabecinha pouco iluminada) e confirmou que ainda estava a tempo de fazer a aposta, dirigiu-se de imediato a um quiosque.

 

Ao chegar lá, apercebeu-se, mais por instinto do que por perspicácia, que algo não ia correr bem. Dois sujeitos de gabardina, mal encarados, rondavam pouco discretamente o quiosque. Assim que se aproximou, dirigiram-se a ele muito coordenadamente. Um deles tinha na mão o que parecia ser um smartphone, carregando no ecrã sem tirar os olhos de Donnie.

“Sarilhos”, pensou, e deu meia-volta, mas quando ia tentar afastar-se, o seu corpo não respondia. Parecia petrificado. Começou a entrar em pânico, e os indivíduos, como se não fosse nada com eles, alcançaram-no, ficando um de cada lado dele.

 

O mais velho falou primeiro, ao mesmo tempo que arrancava da mão de Gladstone a chave premiada.

– Muito bem, Sr. Gladstone. Nós ficamos com isto. E com o relógio, também.

Donnie apenas conseguia mexer os olhos; a custo conseguiu também começar a esboçar movimentos com a boca. O seu captor mais novo carregou no ecrã do aparelho e Gladstone conseguiu falar:

– Quem diabo são vocês? E que raio me fizeram? Não me podem tirar essas coisas!

– Engana-se, cavalheiro – respondeu o mais velho, que também era o mais ameaçador – Não só podemos, como é nossa obrigação. Você está a cometer um crime.

– Crime? Que história é essa? Não fiz mal a ninguém!

– Apropriação indevida de dispositivo de deslocação temporal – explicou o mais novo – ou seja, este seu brinquedo, que não é verdadeiramente seu – e expôs o relógio.

– Encontrei-o, é meu! Não o roubei nem nada que se pareça!

– Irrelevante. Questões sobre propriedade à parte, não tem licença para o usar. Muito menos para isto – disse o mais velho, exibindo com ar enojado o papel com os números, que rasgou de imediato.

– Ei!

– Uso de dispositivo de deslocação temporal para enriquecimento próprio. Sabe qual é a penalização?

– Mas afinal quem diabos são vocês? Falam como se fossem polícias, mas parecem mais dois espiões ou coisa do género, com essas palavras caras. De qualquer forma, sei a chave de cor, pode deitar fora o papel.

– Você não está mesmo a ouvir-nos, pois não, Donald? Só por isso vai ficar congelado até passar a hora em que se pode apostar.

– Porra! Deixe-me ir!

– Não. Tem que prestar contas por isto.

– Não sei quem vocês são, mas tenho os meus direitos!

– Ah, é claro, os direitos. Desistiu deles quando resolveu mudar a história a seu favor, seu… seu terrorista – retorquiu o mais velho – Vai passar muito tempo numa cela paralisante.

– Não podem fazer isto! Não podem! – Donnie estava quase a chorar, o que, atendendo à sua compleição abrutalhada, não deixava de ser um espectáculo um tanto bizarro.

– Talvez o pudéssemos soltar – tentou o mais novo – afinal, é uma primeira ofensa… E a verdade é que o relógio efectivamente estava perdido.

– Não.

– Ele acabou por não fazer nada…

– Mas sabe demasiado. Descobriu e usou um cronodeslocador.

– Ora, quem vai acreditar nele quando disser que viajou no tempo?

Donnie resolveu aproveitar a oportunidade:

– Eu não conto nada! Por favor! O seu colega tem razão, ninguém ia acreditar em mim!

O mais velho olhou para ele:

– Suponho que não, realmente. Pode agradecer ao meu colega, acho que o vou deixar safar-se… desta vez! Mas se algum dia sei, ou se sonho sequer que voltou a fazer o mesmo…

– Não! Não faço! Juro! Nem me chego mais perto de relógios! Por favor!

– Ok – respondeu o mais novo – Acho que acreditamos em si… Mas vamos andar a vigiá-lo! – fez o gesto de apontar com o indicador e o médio para os próprios olhos e depois com o indicador para Donald. – Porte-se bem, hã? – Dito isto, tocou nuns símbolos no ecrã da caixinha e os dois homens misteriosos desvaneceram-se no ar.

 

Donald ficou a murmurar qualquer coisa semelhante ao cruzamento entre uma prece e um agradecimento, enquanto os outros desapareciam. Passados uns momentos, recuperou toda a mobilidade. Viu que passara a hora de apostar e dirigiu-se, macambúzio, para uma estação de camionetas para voltar para casa.

Nó Górdio Parte 1

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