– Pai, isso… nada disso faz sentido – Não sabia o que dizer. Sempre acreditara no pai, mas aquilo era impossível.

– Eu posso provar-te o que estou a dizer.

– E como? Como chegou a essa conclusão por uma simples despedida deixada pelo avô?

– O teu avô deixou outra coisa além do livro. Deixou também uma caneta. – Tirou-a da gaveta da secretária. Era uma caneta forrada a madeira e parecia tão velha e frágil que a filha receou parti-la ao pegar-lhe. No entanto, mostrou-se incrivelmente resistente à pressão dos seus dedos.

– Demorei muito tempo a associar. Demasiado tempo. Mas agora entendo. Ele pediu para não publicarmos o seu último livro. Praticamente exigiu. E lembro-me de ele usar essa caneta enquanto escrevia este livro.

Manteve os olhos fixos na caneta. Havia algo peculiar na sua textura, no próprio formato. 

– Lembro-me por que um dia observava-o enquanto escrevia, e reparei que não usava a máquina de escrever, como era habitual – continuou. – Com um pretexto para o interromper, entrei no escritório e perguntei-lhe porque estava a escrever à mão. – Hesitou novamente, como se recordasse o próprio momento.

– E suponho que obteve uma resposta – concluiu a filha, pousando a caneta na secretária.

“Esta caneta é especial, filho. Mas tens que acreditar no que ela é capaz. Um dia será tua e, se assim entenderes, poderás usá-la. Mas somente no teu último trabalho, e quando a tua vida estiver próxima do fim, tal como a minha está. Prometes-me?” 

– E eu prometi, não compreendendo aquelas palavras. – A voz embargada reduzia-se agora a um murmúrio. – Pensei que fosse apenas mais uma das brincadeiras ou maluquices do meu pai. Um mês depois, ele desapareceu. E sobre a secretária, apenas restava o livro, com a despedida, e a caneta.

O velho levantou-se e dirigiu-se à janela. A revelação ecoava naquele escritório e ela estremeceu. Tinha receio do que ia ouvir a seguir.

– És uma mulher fantástica. Estou orgulhoso de ti.

– Porquê, pai? Por que me está a dizer essas coisas?

– A minha vida está próxima do fim, como bem sabes. A doença leva finalmente a melhor. Eu e o teu avô éramos muito ligados. Sinto tanto a falta dele. Descobrir isto deu-me vontade de estar com ele, uma vontade mais forte do que nunca.

Ela levantou-se e os últimos raios de sol romperam as nuvens cinzentas, iluminando-lhe o rosto. Chorava.

– Mas como sabe que vai encontrar o avô? O pai apenas será transportado para o mundo que escreveu e… – calou-se e observou o velho, compreendendo – Fala muito sobre o avô neste livro.

Ele virou costas à luz do exterior e acenou-lhe. Subitamente, parecia mais novo e o olhar era fraterno, mas determinado.

– Sim. Sobre o avô e o que ainda poderíamos ter partilhado se ele não tivesse partido. O que ainda poderíamos ter feito, com ele presente. Mas não te preocupes, – passou-lhe a mão pela face, limpando-lhe as lágrimas – tu, a mãe e a avó também entram nesta história. Estarei rodeado por todas as pessoas mais importantes para mim. Serei feliz.

Deu-lhe um beijo e avançou para a secretária. Pegou na caneta, e ela sabia que ia escrever a última frase do livro e partir deste mundo.

– Pai – a voz saiu-lhe baixa. – Não parta sem mim.

O velho escritor olhou-a com ternura.

– Não é uma despedida, filha. É um até já, se assim quiseres. Se um dia escreveres o teu livro, antes do fim.

Levantou a caneta do livro. E com um sorriso partiu, desmaterializou-se deste mundo. Não houve fumo nem luz, desapareceu como se nunca tivesse existido.

 

A noite caíra e ela continuava de pé, junto à janela. As lágrimas já tinham secado. O avô tinha razão, pensou. A herança era de facto a mais valiosa. Permitia manter a família junta. Pegou na caneta e sorriu. Pelo menos um livro, ela teria de escrever.

herança

Anúncios