Sentia-se atordoada com o que o pai acabara de dizer. Apesar de nunca o ter conhecido e poucas vezes terem falado nele, a sua presença era incontestável. Uma presença silenciosa, como uma mágoa que o tempo não cura, escondida para sempre nos olhos do pai.

– O teu avô não fugiu de casa. Não foi raptado, nem assassinado. O teu avô não morreu, no sentido literal da palavra. O teu avô desapareceu deste mundo e entrou noutro.

Silêncio. Após uns longos segundos a filha conseguiu franzir as sobrancelhas.

– Sim, foi mesmo o que ouviste. Ele desapareceu do nosso mundo para entrar no mundo ficcional que ele criou. Na sua fantasia.

– Pai, não me pode pedir para acreditar que…

– Eu sei, é uma loucura, deves estar a pensar que fiquei senil. – Levantou-se, e da enorme estante tirou um livro cuja capa não escondia o constante uso que tinha sofrido. – Este foi o último livro escrito pelo teu avô. Nunca ninguém o leu, excepto eu e a tua avó.

– Porquê o segredo?

– O teu avô pediu expressamente que o livro fosse lido apenas por nós. E que nunca o publicássemos – fez uma pausa, e apercebeu-se que apesar de toda a preparação, custava-lhe falar naquele assunto. – Era o seu último testemunho, a herança mais valiosa que nos deixava.

Impaciente, a filha contorceu-se na cadeira e lançou um olhar incomodado ao livro pousado sobre a secretária.

– A mais valiosa? Que tem esse livro de tão valioso?

– Durante muito tempo tentei responder a essa pergunta, e nunca consegui perceber o porquê. Cheguei mesmo a pensar que ele tinha enlouquecido e que esta era a prova da sua loucura, mesmo antes de desaparecer. – Abriu a última página do livro e deslizou-o vagarosamente sobre a secretária – Lê, por ti mesma.

Ela inclinou-se para a frente e com as duas mãos segurou o livro pela lombada. A letra era pequena e meticulosa, mas não difícil de decifrar.

“À minha mulher, que sempre foi real na minha fantasia. Ao meu filho, que continue a acreditar nesse mundo. Por eles, e só eles, será lido este livro. Aqui deixo a minha vida e a minha herança mais valiosa.”

– É uma despedida – disse. – Estava convencida que ele tinha partido sem deixar a mínima pista.

– Eu e a tua avó decidimos não contar. Como leste, só nós deveríamos ler o livro. E como nunca chegámos a compreender o verdadeiro significado “da minha herança mais valiosa” – citou, num tom irónico e triste – acabámos por desistir e deixar de pensar neste assunto. Foi o nosso maior erro… – suspirou. – Arrependo-me de não ter compreendido antes.

– E porque se arrepende?

– Se tivesse compreendido a tempo, a avó e a mãe não teriam partido como partiram. Continuariam vivas, imortalizadas no mundo criado por elas – Pousou delicadamente a mão no livro e olhou-a. – O teu avô continuou a viver connosco neste livro.

Ela não queria acreditar. Mas os olhos do pai não podiam estar a mentir. Não podiam estar a inventar. E nesses olhos, percebia que havia muito mais por revelar.

herança

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