O escritório continuava igual ao longo dos anos. A disposição das estantes nunca havia sido mudada, e sabia que, se desejasse encontrar o mesmo livro que tinha lido há quinze ou vinte anos, ele estaria exactamente no mesmo sítio. O pai era um homem de velhos hábitos e conservador, sobretudo no que dizia respeito ao método de trabalho.

Havia um portátil novinho em folha na secretária, mas a antiga máquina de escrever posicionada em frente à cadeira mostrava ser claramente o instrumento de trabalho preferido.

O velho sentou-se e a filha seguiu-lhe o exemplo. Esperou que o pai começasse a falar.

– Este livro não será publicado, filha. Nem alguém o deve ler, excepto tu – disse, bastante calmo.

– Como assim, pai? Então não era este o teu último trabalho? O grande final?

– É o meu último trabalho, e o grande final aplica-se perfeitamente. Sempre lamentei não usares o teu bom uso das palavras para a escrita. – O velho cruzou as mãos sobre a secretária e olhou-a amavelmente.

– Posso usar bem as palavras e proferi-las na melhor altura, o mais correctamente possível. Mas o dom da escrita é seu e não meu, pai, como sempre lhe disse.

Suspirou. Ela conhecia bem aquele suspiro, ouvira-o vezes suficientes quando passavam horas e horas a analisar livros e os escritores preferidos. O facto de ela nunca ter desejado seguir o caminho da escrita entristecia-o, apesar de ele nunca ter admitido.

– Sim, eu herdei o gosto do teu avô. Tenho pensado muito ultimamente. O meu novo livro fala sobre ele.

– De verdade? O pai nunca falou muito sobre o avô, depois do modo como ele…- hesitou, procurando as palavras mais adequadas – depois do modo como ele partiu.

– Sim. Nunca compreendi a partida do teu avô, apesar de todas as pistas falsas que segui e de todas as teorias que fui criando ao longo dos anos. – Ergueu a cabeça para o tecto, pensativo. – Até que acabei por desistir e limitei-me a viver com a perda, tal como ela foi. Injustificável.

O avô partira, sem deixar a mínima pista. Morte, fuga ou rapto. Nenhuma das hipóteses foi confirmada pela polícia. O homem simplesmente desaparecera, sem deixar rasto. Ainda não era nascida quando a tragédia ocorreu.

– Então o novo livro é uma memória ao avô? A sua história?

– Não, não é uma memória ao avô. Nem a sua história. Ele foi muito famoso e muitas biografias foram publicadas. E mais ainda foi publicado após o seu desaparecimento.

A filha observou-o. Tinha uma expressão calma e determinada, o oposto do constante nervosismo em que vivia ultimamente. Começou a ficar impaciente. Qualquer coisa não batia certo.

– Então de que se trata? Vamos pai, termine lá o mistério e conte-me tudo.

O senhor Afonso inclinou-se vagarosamente para a frente e tomou-lhe as mãos.

– Finalmente descobri o que aconteceu ao teu avô.

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