A mulher abriu o portão e avançou em direcção ao casarão. Não parou para contemplar, como era seu hábito, os bonitos jardins, com as sebes geometricamente perfeitas e com as flores de várias espécies e feitios. O vento agreste e a ameaça de chuva daquela tarde de Outono poderiam justificar a urgência com que avançava. Mas não. Apesar de, na aparência, tudo estar como sempre foi, ela não sentia a alegria que outrora irradiara daquele espaço.

A morte da mãe e a doença do pai tinham-lhe trazido uma tristeza quase permanente, e os passeios naqueles jardins começaram a diminuir. Mas havia algo mais. Algo que ela não conseguia entender. Ultimamente, parecia-lhe que não era só a doença que afectava o pai. Andava estranho e aquele convite para tomar um chá trazia alguma notícia. Má notícia, pressentia. Teria o pai falado com o médico? Teria piorado? Era provável. Ou seria outro assunto que a trazia ali?

Bateu à porta e aguardou. Um velho de corpo frágil e cara enrugada abriu a porta, com um sorriso sincero no rosto. Cumprimentou-o, não escondendo a ansiedade que a dominava.

– Aqui estou, pai. Está mesmo tudo bem consigo? – Os olhos pareciam faróis a examiná-lo de cima a baixo.

O velho manteve-se firme e observou-a por cima dos óculos, que deslizavam frequentemente para a ponta do nariz esguio.

– Estou bem, podes estar tranquila – disse, por fim. Envolveu-a num abraço quente e prolongado. – Entra, o chá está pronto.

O pai piorava rapidamente e o médico tinha sido bem claro. Com aquela idade, não iria haver melhoras. Poderia manter-se auto-suficiente por mais uns meses, mas isso iria acabar. Não conseguia imaginar o pai acamado. Mas o abraço tranquilizou-a e procurou de imediato outros motivos para o convite. Quando despertou deste turbilhão de pensamentos, apercebeu-se de que tinha sido conduzida até à sala. Era ampla, com muitas estantes e plantas. Mas, tal como os jardins exteriores, parecia-lhe que já não irradiava a beleza natural de outros tempos.

– O seu livro está concluído, não é verdade? – Instalou-se no sofá, visivelmente mais relaxada.

– Perspicaz, como sempre.

Entregou-lhe a caneca de chá fumegante com uma expressão divertida.

– É mesmo o último pai?

O velho sorriu. Não era um sorriso triste nem amargo, como ela vira muitas vezes ultimamente. Este era caloroso, como se lhe desse satisfação ouvir aquela pergunta.

– É o último, sem dúvida.

– E de que se trata? Mais um mistério? Um romance? Ou, – acrescentou, num sussurro fingido – finalmente, uma autobiografia?

A curiosidade era legítima. O pai nunca revelava nada sobre os livros que escrevia, até estarem concluídos. Neste livro, o seu silêncio fora insuportável.

– Saberás ainda hoje filha – afirmou, com toda a naturalidade. – Mas o importante é o que irá acontecer, agora que está terminado.

“Será mais um sucesso de vendas”, pensou. Bebeu alguns tragos e deixou o calor do chá aquecer-lhe o corpo. O pai ergueu-se, a custo.

– Vem comigo.

No seu passo arrastado dirigiu-se para as escadas. Intrigada, a filha seguiu-o em silêncio. Só saberia mais se deixasse o velho contar a história à sua maneira. Sempre fora assim.

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