Com o passar das horas, a chuva abrandou. Já não chovia torrencialmente, agora era uma chuva fina e leve. Também o Sol se escondia no horizonte enquanto os relâmpagos iluminavam o céu coberto de nuvens cinzentas.

John perdera a conta ao número de horas que perdera a perseguir a criatura. Para um ser daquele tamanho, a besta era perita em esconder-se por entre a vegetação bravia. Porém, ao fim de quase uma hora após o incidente em Bungay, conseguira vislumbrar o gigantesco cão a vaguear pelos campos. Decidido a não deixar a besta escapar novamente, John manteve-se à distância, mas sempre no seu encalço, esperando pelo momento perfeito para atacar.

Puxou as rédeas de Onyx quando o ser parou.

A criatura levou o focinho ao chão e começou a farejar as ervas rasteiras. Com as patas dianteiras, começou a escavar um buraco no chão, remexendo a terra húmida. Quando terminou, deitou-se no buraco e enroscou-se.

John aproveitou o momento para estudar o local. Estava nas redondezas da Abadia de Leiston, longe de povoações e curiosos. Era o momento ideal.

Saltou da sela e desembainhou a espada. Deixou o cavalo para trás e caminhou de queixo erguido em direcção à besta. Estava na hora de acabar com aquilo de uma vez por todas.

Parou a alguns metros da criatura. Esta parecia ter caído num sono profundo. John conseguia ouvir a respiração do animal, sempre no mesmo ritmo lento. Aproximou-se devagar, com cuidado para não fazer barulho. Matar a besta durante o sono dificilmente era material para lendas, mas não se travava de uma lenda, era a vida real. Ele vira com os próprios olhos o que aquele demónio era capaz de fazer, tinha de pôr fim à sua vida, os combates dignos de histórias teriam de ficar para outro dia.

Já junto ao gigante adormecido, ergueu a espada acima da cabeça e preparou-se para desferir o golpe fatal. Os dois sinistros olhos vermelhos abriram-se e fitaram John. Num salto, a criatura colocou-lhe as patas dianteiras sobre os ombros e derrubou-o. John sentiu o peso da criatura sobre o peito, apertando-o, dificultando-lhe a respiração. Tentou rebolar, sair debaixo da besta, mas esta era demasiado pesada. A um rosnar profundo seguiu-se uma dor lancinante no ombro esquerdo. Os dentes aguçados rasgavam-lhe a carne, tingido as vestes de vermelho.

Reuniu forças e vincou os pés no ventre do animal, empurrando-o para trás. Rastejou pelo chão enlameado em busca da espada que largara na queda. Esticou a mão direita quando viu o punho dourado, mas não o conseguiu alcançar. A besta cravou-lhe os dentes na perna direita e puxava-o para longe da arma. Com o pé esquerdo, John pontapeou o focinho da criatura até esta o largar com um latido. Agarrou a espada e virou a lâmina na direcção da fera.

A criatura saltou sobre John, empurrando-o contra o chão. Este apenas viu os olhos vermelhos e os dentes brancos voarem na sua direcção. As mandíbulas da besta fecharam-se em torno do seu pescoço. Ouviu-se um latido de dor e John sentiu pressão no braço que empunhava a espada. De um momento para o outro tudo acabou, o mundo ficou negro.

Ferido, Shuck afastou-se do corpo do humano. A lâmina de metal trespassara-lhe o peito, perfurara um dos pulmões e provocara uma hemorragia interna. Dorido e com dificuldade em respirar, arrastou-se para uma cova um pouco mais à frente, procurando refúgio. Deitou-se na lama e tentou recuperar as forças. Um cansaço imenso apoderou-se do seu corpo. Pouco depois caiu num sono profundo do qual não voltaria a acordar.

A tempestade parou.

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