As nuvens cinzentas escondiam o Sol e cobriam o azul do céu. O vento forte arrancava os ramos secos da vegetação e obrigava John a proteger o rosto com a capa negra. Era Agosto mas mais parecia Inverno.

Não tardou para que o céu cumprisse a sua ameaça. Uma chuva torrencial caiu sobre John e Onyx, o seu garanhão negro. As grossas e frias gotas de água escorriam-lhe pelo rosto, encharcando-lhe a capa e dificultando-lhe a visão.

Ainda lhe faltavam percorrer uns 30 quilómetros até alcançar Woodbridge. Era-lhe impossível percorrer essa distância com aquele temporal. Teria que parar e procurar abrigo até a tempestade amainar.

Obrigou Onyx a abrandar e inspeccionou as redondezas em busca de refúgio. Por entre as árvores, viu a torre da capela da povoação local. Devia estar ainda a uns sete ou oito quilómetros mas parecia ser a sua melhor opção. Puxando pelas rédeas do garanhão, avançou em direcção à torre.

À medida que se aproximava do edifício, este acabou por se revelar mais do que uma simples capela. Tratava-se de uma igreja com uns quarenta metros de comprimento e com uma torre que se erguia talvez até aos 25 metros.

Parou junto ao muro que ladeava o terreno da igreja e desmontou.

– Tem calma, companheiro. Vais ter o teu merecido descanso – disse, enquanto acariciava o cavalo no pescoço.

Com uma mão no punho da espada e outra a puxar as rédeas de Onyx, atravessou o portão e avançou pelo terreno circundante à igreja. Várias lápides de pedra erguiam-se do chão, inclinando-se umas sobre as outras, rodeadas por vegetação rasteira.

Junto à porta, John encontrou um homem de batina.

– Oferece refúgio desta tempestade a um viajante, padre?

– As portas da casa de Deus estão abertas para todos, mas ficaria melhor instalado na estalagem da vila – respondeu o homem de rosto enrugado. – Não temos estábulo para a sua montada.

– Procuro apenas refúgio da chuva. Não tenciono pernoitar – declarou John, ao mesmo tempo que puxava pelo fio que trazia ao peito, revelando uma cruz de prata trabalhada.

John não conteve o sorriso quando os olhos do padre reconheceram a insígnia. Ninguém do clero recusaria abrigo a um membro da Irmandade.

– Claro que temos sempre espaço para um Irmão – apressou-se a acrescentar. – Peter, leva o cavalo deste nobre cavaleiro e assegura-te de que tem água e feno.

Um rapaz de oito anos, coberto de lama e roupa remendada, surgiu a correr por entre as lápides e tomou as rédeas de Onyx.

– Não se preocupe, nobre senhor, o seu cavalo está em boas mãos.

Puxando o garanhão negro pelas rédeas, o rapaz conduziu-o para trás da igreja, até desaparecerem os dois do campo de visão de John.

– Se me permite perguntar, o que o traz a estas bandas?

– Vou a caminho de Woodbridge, a pedido do bispo.

– Sim, ouvi rumores das mortes. O povo fala em demónios e bruxaria.

– Temo que sejam mais do que rumores – confirmou John.

– Venha, entre. Vou presidir à celebração dentro de meia hora. Ainda tem tempo de se secar.

John acenou com a cabeça e seguiu o padre para o interior da igreja.

A igreja da Santa Trindade estava cheia. Os fiéis da vila ocupavam os bancos de madeira espalhados pelo chão de pedra, enquanto o padre celebrava a missa.

Não estava nos planos de John ficar para assistir à cerimónia, mas a tempestade parecia não querer amainar. A sua viagem ia levar-lhe mais tempo do que calculara. Sentado num canto sombrio da igreja, procurando evitar olhares curiosos, aproveitou a situação para dar algum repouso às pernas depois de tantas horas a cavalgar.

John fechou os olhos e concentrou-se no som da chuva no exterior. As últimas noites tinham sido mal dormidas, talvez fosse também uma boa oportunidade para descansar um pouco a vista.

O som de um trovão fez John dar um pequeno salto na cadeira.

As portas da igreja abriram-se em par com um estrondo e a besta entrou.

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