Finalmente, o Santo Tribunal chegou à conclusão de que o réu era culpado de ter uma natureza infame e incorrigível, seguindo-se a sentença: morte na fogueira, uma opção tradicionalmente popular para impressionar as massas com aplicação de excruciante justiça divina.

Sam foi transportado até um pelourinho na praça da catedral, onde já empilhavam madeira regada com gasolina. Curiosamente, o céu, que estivera limpo toda a tarde, começou a ficar nublado.

“Olha que sorte. Talvez alguém lá em cima goste um bocadinho de mim. Ou então quer prolongar o meu sofrimento”, pensou o condenado, recordando-se de algo que lera sobre as execuções com madeira húmida serem mais misericordiosas, pois libertavam mais fumo e a vítima ficava inconsciente antes de estar verdadeiramente queimada. Não sabia se era verdade, mas o pensamento confortava-o um bocadinho.

As nuvens adensaram-se mais um pouco.

Qualquer conforto que Sam pudesse ter sentido esvaiu-se quando viu o rosto de Eliza, carregado de lágrimas. A multidão vaiava e insultava-o, e não deixou de notar que havia câmaras de filmar automatizadas a toda à volta. Uma execução com filmagem multi-ângulo; certamente seria transmitida por todo o país em glorioso 3D…

As nuvens cobriram todo o céu; apesar de ainda faltar uma hora para o pôr-do-sol, ficou escuro como a noite. Aqui e ali, alguns espectadores começaram a esboçar ares de preocupação, e um outro, de medo.

Relâmpagos da cor do sangue saltaram entre as nuvens, acompanhados de trovões que evocavam, no fundo das mentes de quem os ouvia, uma voz zangada.

Finalmente começou a chover, embora fosse um tipo de chuva contra o qual nenhum membro da assistência possuía um guarda-chuva eficaz. Labaredas caíram por toda a praça, queimando, até mesmo carbonizando, os presentes, que tentavam inutilmente fugir aos gritos, atropelando-se uns aos outros no meio do caos. Curiosamente, as chamas, que brilhavam com uma intensidade sobrenatural, pouparam o pelourinho e o condenado.

No meio do pânico, a populaça demorou a aperceber-se de uma imponente figura alada que desceu das nuvens até ao pátio. A sua forma era difícil de apreender com nitidez, e o seu rosto tão luminoso que era impossível de fitar.

As câmaras estavam também a ter problemas em focá-lo.

O ser falou, ou melhor, troou, dado que tinha voz de trovão, não muito diferente dos sons que se fizeram ouvir no início da tempestade.

Disse o seguinte:

– VÓS, FILHOS DO CRIADOR, ATREVEIS-VOS A JULGAR E CONDENAR INOCENTES, SÓ POR SEREM DIFERENTES. USAIS O NOME DO CRIADOR PARA VOS CONCEDER FALSA LEGITIMIDADE. ARROGAI-VOS O PAPEL DE JUSTOS, QUANDO SÃO OS MAIORES PECADORES. SEMPRE O FIZESTES, E O CRIADOR SEMPRE VOS PERDOOU. MAS HOJE, PASSASTEIS TODOS OS LIMITES. AO CONDENAR ESTE HOMEM COMO UMA ABOMINAÇÃO, TORNASTE-VOS VÓS A VERDADEIRA ABOMINAÇÃO. NEM FAZÉIS IDEIA DO QUE ELE É NA REALIDADE, POIS NÃO? O CRIADOR SEMPRE TOLEROU A VOSSA LOUCURA, COMO CRIANÇAS INSENSATAS QUE SOIS, MAS NÃO MAIS. O CRIADOR DECIDIU QUE BASTA!

E, com isto, a enorme figura levantou os braços, segurando algo que parecia simultaneamente uma espada e um martelo, envolto em chamas iguais às que se precipitavam das nuvens. Manteve a arma, instrumento de punição divina, erguida por breves momentos, antes de bater violentamente com ela no chão.

O clarão foi visto a muitos quilómetros de distância. O calor permaneceu durante uma semana, impossibilitando os esforços de ir prestar auxílio à cidade. O país, e o mundo, que assistiram ao evento no “glorioso 3D”, pelo menos até as câmaras holográficas serem pulverizadas, ficaram aterrorizados.

Quando finalmente foi possível alcançar o local onde tudo acontecera, as equipas de resgate apenas encontraram uma cratera com quilómetros de diâmetro, cheia de cinzas. Na sua periferia, ainda subsistiam ruínas queimadas e corpos carbonizados, bem como alguns objectos mais resistentes, que apesar de tudo estavam calcinados.

Durante décadas, estudou-se o fenómeno, discutiu-se quem era a criatura, o que significava o seu discurso, o que despoletou o seu ataque. Gastaram-se rios de tinta em tratados a analisar o que acontecera, e qual a importância do condenado, dado que fora a sua execução iminente que aparentemente trouxera a catástrofe.

A resposta ao enigma, no entanto, nunca foi descrita em nenhum documento oficial. Mas a sabedoria popular centenária providenciava todas as explicações necessárias, nomeadamente, qual era a relação entre Samuel e o vingador alado.

Afinal, até uma criança sabe que os anjos não têm sexo.

Parte4

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