Dois dias depois, Sam encontrava-se acorrentado perante um púlpito, no pátio defronte da catedral. Nesse mesmo púlpito encontrava-se o Cardeal Inquisidor Ignacius Thorsen, conhecido como “Punho de Ferro do Criador”, um dos Clérigos mais temidos de sempre, e grande fomentador das perseguições dos últimos tempos.

À volta, uma multidão assistia ao julgamento de Samuel, atraída pela perspectiva de assistir a uma execução pública, de preferência antes da hora do jantar. Eliza também se encontrava lá, cinzenta, e sob a vigilância de dois acólitos, embora não fosse provável que pudesse fugir. Em todo o caso, era cúmplice do arguido.

O julgamento, é claro, foi uma farsa, apenas com o intuito de dar espectáculo à turba que ansiava por sangue. Sempre aproveitando para se educar a população, claro.

Thorsen, após os formalismos de abertura, não perdeu tempo, indo directo ao assunto:

– Samuel Weiss, sabes de que és acusado?

– De “ofensas mortais”, mas ainda não percebi porquê – respondeu Sam, pondo o seu melhor ar de menino de coro. – Não me lembro de ter feito mal a ninguém.

– Não se trata de fazer mal a alguém, mas sim à ordem natural das coisas. À própria Natureza. E tudo insultando o Criador, sua aberração.

– Nunca insultei ninguém, e o Criador muito menos. Não de propósito, pelo menos. E é uma bela acusação, vinda de alguém que me está a chamar nomes.

– E insistes na charada?! – Thorsen levantou-se um pouco na cadeira, quando berrou, tornando a reclinar-se. – Tu, na tua essência impura, quebras um dos mandamentos essenciais do Criador: não tens o ímpeto da reprodução. És desprovido de sexualidade, uma das condições essenciais dos humanos, e uma das dádivas divinas. Consegues ainda ser pior que os malditos desalinhados!

Com esta alusão, Sam lembrou-se da implementação de “campos de correcção”, em que os ditos “desalinhados”, que era o termo pejorativo usado para os homossexuais, eram “realinhados” de modo a voltarem a agir “em conformidade” com o plano divino. Aos olhos dos Clérigos, os assexuais como Sam eram piores, claro. Nem sequer tinham uma orientação que pudesse ser “corrigida”, e como tal, eram considerados abominações sem salvação.

Sam conseguira esconder, durante a ascensão dos fanáticos que agora o detinham, essa sua característica. O casamento com Eliza ajudara-o a sentir-se menos desintegrado – a sua impossibilidade física de ter relações sexuais fora quase uma vantagem, e amavam-se de verdade. Claro, havia outras pequenas coisas, como beijos, que davam prazer à esposa, e que não lhe custavam nada, embora também não sentisse nenhum benefício físico, só a satisfação de agradar à companheira.

E agora ela estava metida nisto. Sam pediu-lhe perdão silenciosamente, sem a conseguir encarar.

Após este prelúdio, o julgamento durou ainda algumas horas. Foram ouvidas testemunhas, encabeçadas pela mãe de Sam, que garantia que o seu filhinho era muito boa pessoa, mas que sempre soube que lhe “faltava algo”, e como estava preocupada com a sua alma, dada a sua existência insultuosa para o Criador. O filho nascera numa altura em que ela devia estar infértil, inicialmente pensara que fora um milagre, mas agora isto. Uma bênção envenenada, lamentava a beata.

Foram ouvidos especialistas, pseudoclínicos com equipamentos caros e espalhafatosos, que ligavam sondas e eléctrodos ao réu, demonstrando que ele não reagia a nenhum estímulo de natureza sexual. Para tal, obrigavam-no a visualizar imagens e vídeos, num visor dum capacete, “para não chocar a audiência”, de todos os tipos de práticas, desde sexo “normal” até formas desviantes, zoofilia incluída. A resposta era sempre a mesma: nada.

“E a abominação sou eu?”, era tudo o que o desgraçado conseguia pensar, no meio da miríade de estímulos violentos.

A cada testemunho, cada teste, cada prova apresentada, Thorsen parecia ficar mais enérgico. Afinal, aproximava-se o momento de um auto-de-fé, o equivalente festivo dos fanáticos.

“Se calhar é mesmo isso que põe estes maníacos excitados”, considerou o réu desapaixonadamente. Por momentos ponderou dizê-lo em voz alta, talvez ajudasse a acelerar o processo. Por outro lado, era capaz de lhe sair o tiro pela culatra, podiam resolver que era motivo para o torturarem um pouco mais antes da execução inevitável, para “lhe limpar a alma obscena”.

Parte3

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