Nos dias que se seguiram, Sam começou a relaxar um pouco. Apesar de aqui e ali se ouvirem comentários pontuais acerca das actividades dos Clérigos e de como andavam a redobrar esforços nas suas “caças às bruxas”, começou a achar que Eliza devia ter razão, não havia nenhuma razão para achar que o seu segredo ia ser exposto. Quer dizer, mesmo a mão cheia de pessoas que sabia o que ele era não tinha razão nenhuma para o denunciar. A maioria provavelmente nem se lembrava desse detalhe acerca de si – sempre fora algo tão insignificante, embora efectivamente fora do normal.

Foi com este optimismo que, na tarde fatídica, se dirigiu para casa após terminar o serviço. Pelo caminho, parou no quiosque do Sr. Schmidt.

– Boas tardes, Sr. Schmidt!

– Sam! Ora viva, como vai isso?

– “Tudo na mesma, como a lesma”, como diria o meu avô.

– He, he, boa resposta. Ah, o teu avô era um caricato. E um bom amigo. Sabes, viemos juntos para este país depois da 3ª Grande Guerra, depois de…

– A Alemanha ficar inabitável – interrompeu Sam. Não queria parecer indelicado, mas as reminiscências de Schmidt começavam a deixá-lo com um amargo de boca. Lembrar-se dos Neo-arianos, um bando de fascistas fanáticos tão louco que entendeu que era melhor varrer a Alemanha a bombas de neutrões do que permitir um aumento na população de imigrantes, fazia-lhe lembrar os Clérigos, cada vez mais poderosos e igualmente loucos.

– Desculpa, filho, não te queria aborrecer – lamentou-se o idoso. Sam sentiu-se envergonhado, e respondeu:

– Eu é que peço desculpa. Sei que o ajuda desabafar, é só que ando sob muita tensão e…

– Ora, esquece lá isso. Dá para ver que também não andas bem, tens cara de quem carrega o mundo às costas. Olha, guardei-te o fascículo dos Clássicos da Literatura do Século XXI desta quinzena, como de costume. Ora aqui está. E guarda o teu dinheiro, este fica por conta da casa.

– Ora, obrigado, mas não posso aceitar.

– Tretas, rapaz. Pensa nisso como prenda de aniversário.

– Só faço anos daqui a quatro meses.

– Prenda atrasada, então. Nunca te dei nada. – Era mentira, e ambos sabiam. Em miúdo, Sam levara muitas revistas de BD à borla para casa, cortesia do amigo do avô. – Ou então de Natal. Como preferires, mas é oferta.

Sam aceitou e despediu-se. Rumou a casa, cabisbaixo. A troca de palavras com Schmidt deitara-o abaixo. De um momento para o outro todos os seus receios se reacenderam, e com o dobro da intensidade.

E foi quando chegou a casa, encontrando Elisa na entrada com uma palidez mortal, quase sem conseguir falar, que percebeu que todos os seus medos se estavam a tornar realidade. O Santo Vagão estacionado na rua lateral também não dava azo a grandes incertezas.

– A-Amor – gaguejou ela, – eles… eles chegaram há pouco…

Mesmo sem perguntar, era óbvio quem o aguardava na sua sala. No fundo, a presença dos Clérigos não era surpresa nenhuma. Inconscientemente, não importava o quanto se tentara convencer do contrário, sabia que a descoberta era inevitável.

Surpresa, isso sim, foi descobrir a pessoa que o denunciara, que se encontrava no meio do grupo.

– Mãe?! – Sam não conseguia, pura e simplesmente, acreditar que a mulher que o pusera no mundo e criara estava ali, entre dois acólitos. Pior ainda, com um ar beatífico e conciliador.

– Filho, meu querido filho – começou ela, – tem calma, está tudo bem.

– Tudo bem? Estes carniceiros invadem a minha casa e está tudo bem?! – retorquiu, exaltado, reacção que os visados pareceram ignorar, na sua justa soberba.

– Sam, meu pequenino. – Detestava quando a mãe o tratava assim, já tinha trinta e cinco anos. – Eles estão aqui para teu bem. Para bem da tua alma imortal, já que o resto está corrompido.

– “Corrompido”? Mas será que percebes o chorrilho de disparates que estás a dizer? – Sam tremia por dentro. Sempre tivera a mãe como facilmente influenciável, mas deixar-se ir de tal modo no discurso daqueles monstros… Denunciar o próprio filho só porque era diferente? Acreditar sequer que essa diferença era… o quê? Obra do diabo, ou outra enormidade qualquer? O seu fio de pensamento foi interrompido pelo chefe do grupo, que Sam reconheceu dos noticiários como sendo o Bispo Gabriel Tiberius:

– Samuel Weiss, estamos aqui para te levar, por ofensas mortais contra o Criador e a Natureza.

– “Ofensas mortais”? Mas vocês são parvos? O que é que eu fiz? – interrogou inutilmente Sam, enquanto era manietado, sabendo perfeitamente porque o levavam. Não lhe ocorria nenhum argumento melhor para se defender. Tiberius fulminou-o com o olhar, enquanto respondeu entre dentes:

– Pergunta antes o que não fizeste, abominação! – E com isto, fez sinal para que levassem o prisioneiro para o Santo Vagão, no qual ia ser transportado para a catedral mais próxima.

Parte2

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