Um Sam Weiss exausto chegou a casa, após mais um dia de trabalho nos armazéns estatais. Eliza aguardava-o, como sempre, com um sorriso no rosto franzino. A vida não era fácil para nenhum dos dois… Ela estava confinada a uma cadeira de rodas após um acidente estúpido (não são todos, no fim de contas?), ele estava preso a um trabalho que não gostava, mas que permitia o sustento de ambos. Era um trabalho honesto, apesar de tudo, algo que não era fácil arranjar tal coisa nos dias que corriam.

As notícias que Sam lera no jornal durante a hora do almoço, acerca das novas leis forçadas pelos Clérigos, eram alarmantes, já que respeitavam à, chamemos-lhe assim, sua “condição especial”.

Eliza também lera e, conhecendo o marido, nem precisava de adivinhar o que o angustiava.

– Ninguém vai descobrir, querido. Tenta relaxar – tentou reconfortá-lo, enquanto comiam as rações de carne que tinham para o jantar.

– Amor, há já várias pessoas que sabem disso. Antigamente não tinha de o esconder, embora não andasse a badalar por aí. Nem sequer me parecia uma coisa com importância, nada de que valesse a pena falar, caramba!

– Eu sei, querido. Eu sei. E, no fundo, foi uma coisa boa, até nos ajudou a ficar juntos. A maioria dos homens “normais” nem olharia para mim segunda vez por causa da minha deficiência. Seres quem és ajudou-te a ver-me de outra maneira. Talvez a nossa união ajude a encobrir-te…?

– Será? Não acredito muito nisso. Os Clérigos andam cada vez mais implacáveis, e olha o que conseguiram hoje. Reimplementaram a pena de morte. Execuções para todos os que afrontem os seus preceitos. Pessoas como eu estão em perigo.

– Sam, eles não vão saber. Sossega! Quem te havia de denunciar? Porra! – Não era costume Eliza praguejar, mais um sinal de que estava verdadeiramente preocupada, ao contrário do que queria fazer parecer. – Toda a gente gosta de ti! És bondoso com todos, nunca te metes com ninguém! Aliás, até és anormalmente bondoso! O último escuteiro! – A mulher sempre lhe chamara isso para se meter com ele devido à sua boa natureza, que era efectivamente incomum.

– Pode ser, mas há sempre alguém que fala. Nem tem de ser de propósito. Basta alguém descoser-se.

Com isto, remeteu-se ao silêncio, enquanto mastigava um naco de carne com tanta fúria que parecia que a sua refeição era culpada de todos os numerosos males do mundo.

Foram deitar-se, após um serão desassossegado em que tentaram, futilmente, distrair-se com um filme qualquer antigo que estava a dar num dos infinitos canais da televisão. Sam nem sequer percebera qual era o título, e o enredo passara-lhe ao lado.

A noite não foi melhor; custou-lhe imenso adormecer, deitado junto a Eliza, que murmurava qualquer coisa enquanto dormia.

Contemplou as pernas atrofiadas da mulher e, por breves momentos, conseguiu pensar num problema diferente. Mais concretamente, seria que algum dia iam ter dinheiro suficiente para um exoesqueleto motorizado dos membros inferiores? Um dos sonhos de Sam era permitir que a mulher voltasse a andar. Era verdade que nunca iria recuperar a sensibilidade dos membros, nem controlar quando “fazia as necessidades”, mas só o recuperar os movimentos… Talvez até facilitasse as coisas para ela arranjar um emprego. Quem sabe, poderiam mesmo sair do pardieiro onde viviam e arranjar uma casinha algures. Um sítio para fugirem à loucura que proliferava pelo mundo.

Quando finalmente adormeceu, teve um sono carregado de pesadelos, em que era exposto em público e caçado pelos Clérigos.

Parte1

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