Passou o pano húmido pela lâmina do sabre, manchando o tecido de vermelho. Mergulhou-o de novo na pequena bacia de água quente e repetiu o processo, dando especial atenção ao sangue que cobria as palavras No me saques sin rason. No me embaienes sin honor.”

Interrompendo o silêncio da noite, o relógio de parede tocou indicando as quatro da madrugada. Fora uma noite longa, mas produtiva para Xavier. Olhou de relance para a folha ensanguentada em cima da mesa, onde constava uma lista de nomes: apenas três restavam por riscar. A sua missão estava quase concluída.

Voltou de novo a atenção para a lâmina do sabre, acariciando-a com o pano. Nas últimas semanas tornara-se mais do que uma arma, era sua amiga e confidente. Conseguia ouvir a lâmina cantar cada vez que ceifava uma vida. Não, o sabre já não era simplesmente uma arma: era parte de si. Era a sua vida.

Já sem resíduos de sangue na lâmina, passou com um pano seco para retirar a humidade. Pegou no sabre como se de um recém-nascido se tratasse, colocou-o com zelo na bainha.

Sobressaltou-se ao ouvir o som estridente da campainha. Não era habitual receber visitas, muito menos àquela hora. Levantou-se e encaminhou-se para a porta. Parou a meio do caminho, lançado um olhar de relance para a mesa e para o sabre. Ponderou em levar a arma consigo, mas com a insistência do toque apressou-se em direcção à porta. Espreitou pelo óculo.

Uma mulher atraente de cabelos negros e de fato azul aguardava do outro lado. Ponderou se devia abrir a porta.

– Xavier, querido, abre a porta. Não tenho a noite toda. Eu sei que estás aí.

Apanhado de surpresa, puxou o trinco da fechadura. Mal a porta se abriu, a mulher entrou no pequeno apartamento. Embasbacado, Xavier viu-a avançar em direcção à sala.

O som dos saltos altos a bater no soalho de madeira quebrou o silêncio da noite. A desconhecida vagueava pela sala, observando a colecção de armas penduradas na parede.

– Tens aqui uma bela colecção – comentou, ao mesmo tempo que ajustava os óculos.

– Conhecemo-nos?

– Não.

– O que quer?

– Tenho uma proposta para te fazer. Ah, aqui está ele… – declarou, aproximando-se do sabre pousado na mesa.

Num salto, Xavier aproximou-se da mulher e pegou na arma antes que esta lhe pudesse tocar.

– Ora, ora, isso são modos?

– O que quer? – insistiu, desta vez sem esconder a irritação que sentia.

– Esse sabre – disse a mulher, apontando para a arma que Xavier segurava agora na mão.

– Não está à venda – respondeu bruscamente. – Agora saia.

– Mas ainda nem ouviste a minha proposta…

– Não estou interessado.

– E se eu oferecer a vida dos traidores da tua pequena lista?

Xavier sentiu um arrepio percorrer-lhe o corpo. Ela sabia. Num movimento rápido, tirou o sabre da bainha e apontou-o à mulher.

– Eu ofereço-me para ajudar e tu apontas-me uma arma? É assim que agradeces?

– Como sabe?

– Eu sei muitas coisas…

Por detrás dos óculos, os olhos da mulher brilharam de uma forma estranha, denunciando-a.

– Para trás, criatura!

A Djinni sorriu e começou a vaguear pela sala, ignorando por completo a postura ameaçadora de Xavier.

– Agora que já esclarecemos isso, que tal falarmos sobre um acordo? Eu trato dos desgraçados que restam na tua lista e tu podes ficar sossegadinho em casa – passou de novo os olhos pela colecção de armas nas paredes – a tratar das tuas espadas sem teres de sujar as mãos. Vê isto como um outsourcing, um serviço para aumentar a tua comodidade. A única coisa que peço em troca é esse sabre que tens nas mãos.

Xavier ponderou a situação. A oferta da Djinni iria poupar-lhe o trabalho de ter de perseguir os traidores. Muito provavelmente levaria a cabo a tarefa com maior facilidade do que ele. As palavras do sabre lhe ecoaram na cabeça, No me saques sin rason. No me embaienes sin honor.” Não, tinha de ser ele a concluir a vingança, tinha de o fazer com honra.

– Eu não negoceio com demónios – declarou.

– Isso é uma chatice – suspirou a Djinni, ao mesmo tempo que sacava de um charuto e o acendia. ­– Infelizmente para ti, eu não aceito um “não” como resposta.

A mulher estendeu a mão na sua direcção e Xavier foi projectado pelo ar. Uma dor aguda percorreu-lhe o corpo quando bateu violentamente contra uma das paredes. Cerrou com força a mão em torno do punho do sabre e tentou avançar sobre a criatura. No entanto não se conseguia mover, estava paralisado. Tentou libertar-se daquelas correntes invisíveis que o prendiam pelos membros de encontro à parede. Moveu-se freneticamente numa tentativa de se afastar da parede, mas sem sucesso. Era como se o tivessem pregado numa árvore.

A Djinni aproximou-se num passo sensual, fumando o seu charuto.

– A minha oferta final. Dá-me o sabre e deixo-te viver.

– Não.

O seu rosto ficou vermelho e o cenho arreganhado.

– Como queiras!

A Djinni começou a fechar a mão. Xavier sentiu um enorme peso no peito, como se algo o estivesse a esmagar. O ar fugia-lhe dos pulmões deixando-o com uma dor agonizante. Os olhos lacrimejavam. Tentou gritar, pedir ajuda, mas quando abriu a boca não saiu nenhum som. A sala em seu redor começou a ficar turva.

Sem aviso, um corvo entrou pela janela aberta e lançou-se sobre o rosto da mulher, atacando-a com o bico, afastando-a do homem moribundo. Os pulmões de Xavier voltaram a encher-se de ar e sentiu que os membros estavam livres.

Cerrando as mãos em torno do corvo que lhe bicava o rosto, a Djinni esmagou-o e atirou-o contra uma das paredes brancas. O malfadado Ribeiro não sabia quando desistir. Recompôs-se e focou de novo a sua atenção no humano.

A Djinni avançou em direcção a Xavier quando sentiu algo frio trespassar-lhe o peito. O humano olhava-a nos olhos, a poucos centímetros dela. Com horror, baixou o olhar em direcção ao peito, a lâmina prateada do sabre estava cravada no seu coração.

Xavier puxou pelo punho, libertando-se da Djinni. O corpo da mulher tombou, transformando-se em cinzas no momento em que tocou no soalho de madeira.

***

De embrulho nos braços, Miguel entrou a correr em casa e fechou a porta com um estrondo. Pousou-o na mesa da cozinha e procurou o remetente. Para surpresa do adolescente de catorze anos, não havia informação de quem lhe enviara a encomenda, constava apenas o seu nome e a sua morada.

Curioso, desfez o embrulho revelando o seu conteúdo. A lâmina do sabre brilhou quando o jovem lhe pegou. Aproximou-a do rosto e leu a inscrição: No me saques sin rason. No me embaienes sin honor.”

Gesticulou a arma no ar, avaliando o seu peso. O pai teria gostado, era um bom sabre.

Foi então que reparou numa pequena nota deixada no interior do embrulho. Pousou o sabre e desdobrou o papel, revelando uma caligrafia cuidada. “Para que possas seguir as pegadas do teu pai. Usa-a com honra”.

Miguel colocou o papel na mesa e pegou novamente no sabre. Estava ali o seu propósito, a sua missão. Seguiria o exemplo do pai, não descansaria até o mundo se ver livre dos monstros e aberrações que viviam nas sombras.

5º.Vingança.Pedro Pereira

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