O sininho da loja repicou e os saltos finos tocaram o chão empoeirado sem que um som se produzisse. O azul-escuro do fato que envergava parecia ser o que de mais colorido existia dentro do local.

O corvo, empoleirado num dos amontoados de objectos que se espalhavam pela loja em aparente desordem, crocitou furiosamente, as asas batendo sem que levantasse voo.

– Então, Sr. Ribeiro, que maneiras são essas? – admoestou a mulher. – Comporte-se, por favor.

Com um sorriso malicioso, ergueu os braços, segurando uma caçadeira que segundos antes não se encontrava lá, e fingiu mirar a ave. O corvo fugiu, desaparecendo num dos buracos do compartimento.

– Não me assuste a mercadoria, sabe que a pode danificar.

A mulher prendeu os olhos castanhos no velho que surgira atrás do balcão de madeira escura. A sombra da caçadeira desapareceu-lhe das mãos.

– Não negoceio com marionetas. Ambos estão fartos de saber disso.

O velho pareceu ofendido.

 – Sou um receptáculo – corrigiu, antes de o crânio começar a derreter, revelando a forma oca. Um gato preto saltou do interior assim que a massa disforme chegou ao chão. A cauda agitava-se no ar à sua volta, descontente.

– Uns não acreditam quando não é um homem, outros ofendem-se quando é – resmungou, os olhos verde-esmeralda brilhando na obscuridade do local. – Que posso fazer por si?

A djinn pousou os dedos sob o queixo, fingindo analisar os objectos que os rodeavam.

– O arco de Ártemis seria interessante, o rastilho de Supernova também… Ou o canto inédito de Homero, esse colocaria os eruditos a beijar-me os saltos…

O gato ronronou.

– Ainda tenho os dentes da serpente de Cleópatra que desejou da última vez – aventou.

A djinn ajeitou os óculos rectangulares, ocultando a irritação. A última vez fora a primeira e única em que não tivera como pagar o preço.

– Não – determinou. Outras prioridades haviam-se feito presentes pelo entretanto. – Desejo informação.

– E em troca?

Pagar a crédito não era opção. Pousou sobre o balcão o frasco cheio de líquido azul brilhante. O gato aproximou-se, cheirando o vidro do objecto, as orelhas espetadas para diante. Numa aberração à natureza, sorriu, reconhecendo o fluído: revelação. Revelação tornada líquida e aprisionada para uso e proveito daquele que a possuísse.

Não perguntou à djinn onde o conseguira, não era proveitoso ao negócio questionar os clientes.

– Aceito. – Uma mercadoria daquelas compraria qualquer tipo de informação, por mais confidenciosa que pudesse ser. – Que deseja saber?

Ambos sabiam que ela não poderia usar o líquido para tomar conhecimento do que queria. Um desejo que negociara décadas antes fechara-lhe essa via.

A djinn olhou em redor, confirmando o que já sabia: o objecto desaparecera.

– Quem levou o sabre?

– Qual sabre?

– Ora então, não é assim que se devem conduzir os negócios – sorriu, fingindo candura. – Temos um acordo sobre a mesa.

O corvo crocitou, saindo do esconderijo e esvoaçando pela loja. Tanto a djinn quanto o gato o ignoraram.

– A menina sabe que manter o segredo da identidade dos meus clientes é a única lei deste estabelecimento – censurou o gato. O corvo acalmou-se com as suas palavras, pousando no balcão ao seu lado. – Mas talvez a Boneca possa cumprir as suas especificações.

Uma boneca de pano sujo apareceu em frente às patas negras. A djinn pegou-lhe, virando-a nas mãos e admirando-a. Não se tornou necessário explicar-lhe o funcionamento do objecto. Ela reconhecera-o pelo que era.

Silenciosamente, o gato estendeu-lhe a caneta que pertencera antes ao homem. Por mais contrafeito que se tivesse sentido, por menos tempo que a tivesse possuído, tinha sido o último proprietário da dita, naquilo que à Boneca dizia respeito. O dono da loja não era mais do que uma ponte neutra entre proprietários.

A djinn pegou-lhe, desenhando na face em branco da Boneca dois pontinhos negros e uma linha sorridente. Soprando sobre a tinta, deu vida à Boneca. Viu-a piscar os olhos antes de a guardar dentro do casaco do fato. O pedaço de pano servi-la-ia bem.

– É um prazer negociar consigo – declarou, já a caminho da saída. Por cima do ombro, lançou ainda um olhar risonho ao corvo. – Não julgou que eu deixaria que o libertassem tão facilmente desta vida, pois não, Sr. Ribeiro? Não se esqueça do seu desejo.

A campainha voltou a retinir, suplantada pelos protestos do corvo, que se lançara num voo desgovernado em direcção à porta. O gato miou, um miado longo e de mau agoiro, que levou o corvo a pousar obedientemente no chão.

– Deixa-a, já está longe do teu alcance. Fizeste o que podias ao manipular a escolha daquele homem. Mas não te esqueças que não permitirei que o teu desejo de morte interfira com os meus negócios.

Sabia do charco que era a sua loja, das pedras que ali guardava até aparecer quem as quisesse atirar. Mas as consequências eram-lhe indiferentes. A prioridade era, como ontem, hoje e amanhã, o bom funcionamento do estabelecimento.

E sobre isso, não precisava de revelação.

O Bom Comerciante

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