O corpo destroçado recusava a obedecer. Encostado ao tronco putrefacto de uma árvore tombada, traseiro a afundar-se na lama fresca, Luís tentava respirar algum do ar fresco da floresta por entre o cheiro a sangue, suor e pólvora. Mal conseguia levantar a cabeça, quanto mais mexer as pernas partidas. O braço direito fora arrancado, deixando apenas um tosco e ensanguentado coto. O esquerdo, a pender dormente sobre a lama, nem conseguia alcançar a caçadeira de dois canos, a um palmo de distância. A dor e a opressiva proximidade da morte eram insuportáveis. Nem mesmo o orgulho de ter cumprido o dever até ao amargo fim afastava o terror.

Em redor, o solo revolvido, enlameado, coberto com ramos partidos e cartuchos vazios estava pejado de hierocoesfinges mortas ou moribundas. Enquanto a aurora começava a pintar o céu em tons de laranja e vermelho, deslizando pelos ramos nus das árvores, um vulto caminhava por entre a carnificina. Os afiados saltos não se afundavam na lama fofa, como se a recém-chegada flutuasse a escassos milímetros dela.

– Pintou um belo quadro, Sr. Ribeiro.

Entre a cortina de longos cabelos castanhos e a névoa da exaustão, viu, no meio dos cadáveres leoninos, uma mulher alta e esbelta, envergando um elegante fato azul-escuro, sobre uma camisa branca. Excepto uma madeixa rebelde que caía sobre o olho esquerdo, usava o lustroso cabelo negro preso na nuca, revelando toda a acutilante letalidade das feições finas. Se a presença naquele campo de morte, por si só, não fosse suficiente para a denunciar, o modo como os olhos brilharam, quais tições, atrás dos óculos rectangulares perante o fumo do charuto, fragmentou qualquer dúvida

– Para trás, demónio! – exigiu Luís, entre ataques de tosse, tamborilando a coronha da caçadeira com os desajeitados dedos, numa tentativa desesperada de a agarrar.

– O termo politicamente correcto é djinn, Sr. Ribeiro.

Djinni, hierocoesfinges, lobisomens, krakens, o quer que seja. Um monstro é um monstro. Lixo não precisa de nome, apenas de arder.

– Ah! Ah! Estou a ver que a chama ainda está bem viva. Pelo menos, por enquanto… É essa a grande vantagem do ódio, não é? Quando mais fracos estamos mais forte ele fica, até ser a única coisa que resta. É onde está agora, sem nada, indefeso, apenas com o seu ódio ardente.

– Mata-me, aberração. Diverte-te a espremer os últimos vestígios de vida deste corpo arruinado, mas fica sabendo que um dia todos os vermes como tu serão purgados da face do planeta.

– Esse é o problema com vocês, caçadores, metem-nos todos no mesmo saco e acabam por perder excelentes oportunidades. Como djinn posso… Oh, peço desculpa. Dá-me um momento?

Enquanto passarinhava descontraidamente, rodando o charuto, uma das hierocoesfinge moribundas começou a rastejar para ela. Agressiva até ao fim, movendo freneticamente a cabeça de falcão, abria e fechava o afiado bico, contorcendo o arruinado corpo leonino para atacar uma última vez. Irritada com a interrupção, limitou-se a largar o resto do charuto sobre a criatura, consumindo-lhe o corpo numa imensa e impossivelmente violenta nuvem de cinzas e fagulhas. Quando terminou, com uma rajada súbita, entre as unhas pintadas de azul-marinho rodava um charuto novinho em folha.

– Peço, desculpa. Onde ia? Ah, sim, oportunidades desperdiçadas.

– Não te aproximes!

– Ou o quê? Nem consegue levantar esse “canhão”. – Como quem tira o novelo a um gato preguiçoso, agarrou na caçadeira e abriu-a para sacar os cartuchos usados. – Relaxe, não o vou matar. Já está a fazer um excelente trabalho sozinho.

– Toda a minha vida combati o Mal. Não farei um pacto com o Diabo para me salvar.

– Vamos manter o Diabo fora disto, pode ser? – pediu, ligeiramente irritada com a menção ao concorrente. Equilibrando a caçadeira ainda aberta no antebraço esquerdo, levou à boca o charuto, que se acendeu mal lhe tocou nos lábios.

Um violento ataque de tosse impediu Luís de retaliar, dilacerando-o com dores. Sorriu. Ao que parecia, não teria de aturar a criatura durante muito mais tempo. Em breve partiria… Pelo menos teria o derradeiro prazer de frustrar-lhe os planos. A djinn teria de procurar outra alma para corromper.

Um agudo crocitar fê-lo rodar dolorosamente o pescoço. No tronco onde se encostava, a pouco mais de um braço de distância, pousara um corvo de leitosos olhos brancos e penas desgrenhadas.

– Para trás, canário, este é meu. É vergonhoso. Ao que isto chegou… Ainda me lembro do tempo em que a Morte se dava ao trabalho de vir pessoalmente guiar cada alma. Agora, deixa tudo para os lacaios. Onde está o tratamento personalizado, o carinho devido a um marco desta importância? Enfim…

Apesar de brancos, os olhos do mensageiro do Além apenas transmitiam negrume a Luís. Uma aura negra e fria, como se não houvesse neles nada mais além de vazio. Nada. Nem Inferno, nem Paraíso, apenas absoluto esquecimento.

– Não tenho medo – mentiu, sentido pela primeira vez uma faísca de dúvida.

– Claro que não. É um homem corajoso. Um exterminador de monstros. Não lhe importa que ninguém verdadeiramente saiba o que jaz além do Véu. O desconhecido não o assusta. Nem que o seu destino seja passar a eternidade na escuridão do absoluto esquecimento ou bloqueado na dor e frio que sente neste momento. Nada disso o intimida, porque partirá deste mundo com todos os objectivos cumpridos. Certo?

– Cala-te, sei o que estás a tentar fazer…

– Não tento nada. Só estou a dizer, para que é que desejaria mais tempo, se não deixa nenhum assunto pendente? Quer dizer, o mundo ainda não foi purgado de todos os monstros… Mas também, não é problema seu, pois não? Já fez mais que a sua parte. Outro tipo que pegue na tocha. Afinal, não os pode proteger para sempre.

Uma única imagem saltou à mente de Luís: o filho. 14 anos mal feitos, mais tomates que miolos e dominado por uma ânsia incontrolável de seguir as pisadas do pai. O que lhe aconteceria se não estivesse lá para o ensinar e resfriar-lhe a imprudência juvenil? Quem o protegeria dele mesmo e das coisas que rastejam na escuridão?

– Não posso realizar desejos a quem não os tenha. Erro meu. É melhor ir procurar outro cliente. Deixo-o apreciar os últimos momentos. Pela proximidade do pardaleco, suponho que não tardará muito. Não se preocupe, só dói quando ele começa a debicar os olhos, depois…

– …preço…

– Desculpe? Não ouvi, tem de falar mais alto.

– Q-qual é o preço?

– Qual é o desejo? – quis saber, rasgando um sorriso que teria envergonhado o Gato de Cheshire.

– Quero viver… p-por favor… Pode ser feito?

– Não nesse corpo. Tarde demais para isso – decretou, colocando o charuto no canto da boca e agachando-se. – Mas, sim, pode ser feito. Pelo preço certo, claro.

– Não roubarei a vida a outra pessoa.

– Imaginei que não. Assim é mais complicado, mas não impossível – assegurou, tirando-lhe dois cartuchos do cinto e molhando-os no sangue de Luís.

– Continuarei a caçar aberrações como tu.

– E? Estou aqui para fazer negócio, o resto não me interessa – Erguendo-se, colocou as munições na caçadeira.

– O-o preço? A minha alma?

– Fique com ela. Almas tenho às dúzias. O que quero é ele.

– O corvo? Mas?… Como é que?… Ele não é meu.

– É sim. Ele é a hora da sua morte, o seu prazo de validade. Todos têm um. Só precisa de doar-mo e receberá um corpo novo. Sem truques, prometo.

Perto o suficiente para começar a bicar-lhe a orelha, o pássaro olhava-o com uma expressão quase inquisitiva. Toda a vida combatera criaturas paranormais, agora estava prestes a pactuar com uma apenas porque era demasiado cobarde. Não queria, não podia, deixar o filho sozinho… Mais que isso, aterrorizava-o o desconhecido que existia para além do Véu.

– Então?

– Sim – concordou, quase se engasgando de nojo perante a própria fraqueza. – Ele é teu.

– Óptimo – Com um clique repentino a caçadeira foi fechada e disparada, convertendo o corvo numa nuvem de penas e sangue.

– O que…

BUM!

Surpresa. Medo. Tiro. Escuridão. Nada. E depois…

Ainda com a derradeira maldição à djinn na ponta da língua, Luís inspirou violentamente como se tivesse acabado de reemergir. Estava vivo! Caído na lama diante do próprio cadáver, em redor do qual ainda choviam penas pretas, mas, sem sombra de dúvida, vivo. A custo ergueu a cabeça da lama fria para o caos ensanguentado do antigo corpo, cuja cabeça pendia para trás, ainda a escorrer massa encefálica.

Triste pela perda, mas satisfeito por o pacto ter funcionado, quis levantar-se para contemplar a nova forma. Depressa entendeu que algo estava errado. Conseguia mexer-se, estrebuchando na lama, só que o corpo não reagia como esperara. Os braços estavam pouco sólidos e as pernas dormentes. Entrando em pânico, num mundo de castanho e preto que lhe parecia muito maior que antes, abriu a boca para gritar e apenas conseguiu libertar um profundo crocitar.

– Parabéns, Sr. Ribeiro, o seu desejo foi realizado. Espero que goste do novo corpo, pois viverá nele durante muitos, muitos anos – assegurou, sorrindo ao agarrar no pequeno, enlameado e desajeitado corvo com delicadeza, para colocá-lo numa gaiola de madeira. Os olhos dela brilhavam como tições por entre o fumo. – Não se preocupe, tenho a certeza que encontrarei um comprador para um exemplar tão raro como o senhor. Pelo preço certo, claro.

3º.Último desejo.Vitor

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