O Cliente bateu na vidraça, espreitando pelo pequeno círculo que abrira na sujidade com a manga do casaco. A loja parecia deserta, mas o Cliente sabia que não era assim. Era apenas um subterfúgio para afastar os visitantes que não sabiam ao que vinham. Empurrou a porta e o sininho irritante soou, batendo no espanta espíritos, derrubando uma bola que rolou até tocar na campainha de mesa. Um pigarrear ouviu-se do fundo da loja. Talvez quisesse dizer que iria já, ou então que não queria que o chateassem. De qualquer das maneiras, o Cliente entrou, contornando os amontoados de tralha que, de tão altos, poder-se-ia supor que suportavam o tecto. Em tempos, os objectos já tinham sido coloridos, ruidosos, agitados, porém agora, sob uma uniforme camada de pó, todos eles pareciam fazer parte de uma só entidade que preenchia a loja.

Um gato negro saltou de um buraco, aterrando graciosamente à frente do Cliente, olhando-o fixamente com os seus hipnóticos olhos verde-esmeralda, numa conversa silenciosa entre as duas almas. Só então o Cliente reparou que o gato tinha algo na boca. Um objecto de tecido. Uma boneca, talvez. Suja, cinzenta, sem vida, como tudo o resto na loja. O humano acocorou-se para dar uma festa ao gato mas, assim que estendeu a mão para lhe tocar, o animal sumiu-se, levando a boneca consigo. Estava de novo sozinho na gruta de quinquilharia, e nem sinal do velho que o enganara. Estremeceu, como estremecera da primeira vez, ao passar ao pé da Mão da Glória no seu pedestal de madeira identificado com uma plaquinha dourada. Ao lado, ardendo numa pequena lamparina de barro, o fogo do Farol de Alexandria alumiava o balcão de madeira escura, no qual bateu três vezes. Um novo grunhido inteligível.

– Sei que está aí! Saia cá para fora!

A porta atrás do balcão, enfeitada com um pergaminho com o selo de Salomão chamuscado nas pontas, abriu-se e um velho baixo e magro surgiu. Arrastando os pés, curvado sobre si próprio, foi-se aproximando do balcão, parando de vez em quando como que para se lembrar do que ia fazer, levando o Cliente a suspirar de exasperação. Assim que chegou ao balcão puxou as mangas até acima dos magríssimos cotovelos, exibindo os ossos cobertos de pele a que alguns chamariam de braços, mas que mesmo assim tiveram força para afastar o enorme corvo preto que, não fosse por ter crocitado em protesto, passaria por empalhado.

– Bom dia, seja bem-vindo! O que vai desejar ho… – semicerrou os olhos raiados de rugas – Ah! Que prazer é vê-lo de volta! Não esperava que encontrasse a loja de novo.

– É esse o seu plano? Mudar a loja de sítio cada vez que engana alguém? – À falta de resposta do velho, que parecia distraído com o pó a bailar sob a luz dourada que entrava pela clarabóia do tecto, o Cliente prosseguiu com a sua queixa. – Pois bem, quero um reembolso.

– Da caneta? Deixe-me ver – pediu, estendendo a mão para o pequeno objecto negro que entretanto o Cliente depositara no balcão. Olhou de vários ângulos, desenroscou, enroscou e por fim proferiu o seu veredicto – A caneta parece estar em óptimas condições.

– Pois, mas não é aquilo que eu pedi!

O velho abanou a cabeça desamparado, dizendo:

– Sempre a mesma coisa… Vê-se mesmo que é de Lisboa. Esta caneta é exactamente aquilo que pediu. Pode não ser o que realmente queria, ou o que realmente precisava, mas é decerto aquilo que pediu. Desculpe, mas não posso fazer nada por si. Sabe, aquela mercadoria que deu em troca…já a vendi. Sim senhora, uma óptima venda. Se quiser pode trocar por um outro qualquer objecto da loja.

O Cliente olhou em volta, os amontoados pareciam-lhe ainda mais indistinguíveis do que o normal. Uma extensa camada de material amorfo sem princípio nem fim e muito menos identidade. O corvo voou por cima da sua cabeça, como se também procurasse algo para si. O Cliente deixou-se ficar a olhar para a ave até esta aterrar por fim sobre o punho sujo de um sabre, de sangue ou ferrugem, não conseguia precisar. De imediato, sem saber porquê, aquele pareceu-lhe o objecto ideal para trocar pela caneta. Virou-se para o velho ao balcão, encontrando-o já a embrulhar a espada que entretanto desaparecera do local onde o corvo pousara.

– Como é que…

– Um óptimo artigo de coleccionador – interrompeu o velho. – Perfeito para pendurar sobre a lareira, se tiver uma em casa. Extremamente valiosa. Repare no cabo – fungou. – Fique sabendo que não pode ser de outra maneira.

O Cliente elevou o objecto aos olhos e leu: “No me saques sin rason. No me embaienes sin honor.” Sorriu. Sim. Era uma boa troca.

1º.A Loja.Carlos

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