Os murmúrios pararam assim que passou a porta. Ela, no corpo de Brites de Almeida, ou como ficaria conhecida, a Padeira de Aljubarrota, entrou no barracão onde fazia o pão.

Os fornos há muito que haviam esfriado. A casa abandonada por muitas horas passadas em busca dos castelhanos invasores. Eram sete? Sete castelhanos escondidos lá dentro. Empunhou a pá, mais uma vez, e avançou para os fornos. O olhar perdido dum soldado morto pela pancada da sua arma teimava em reaparecer à frente dos olhos. O sangue a ensopar a saia. Os gritos e o palrar incompreensível a cada encontro com o inimigo… Nunca esqueceria o rosto dos que havia morto. Voltaria a fechar os olhos sem reviver aquilo? Apertou o cabo de madeira, ignorando as farpas que se espetavam nos dedos.

– Saiam daí! – ordenou, a voz em nada parecida com a que recordava como sua.

O silêncio foi a única resposta.

– Saiam ou morram pelo fogo – insistiu.

Levantou a pá e aproximou-se das bocas dos fornos, mas só obteve mais silêncio.

– Que morram pelo fogo – gritou, procurando com os olhos os toros que usava para acender o lume.

– Espere! Nós saímos – uma voz de rapaz pediu, murmurando qualquer coisa em Castelhano para os restantes.

Oito, eram oito dentro dos fornos do pão. Todos eles pouco mais do que miúdos, de fardas sujas, cabelos e rostos cobertos de cinza. Tremiam, tossiam e cuspiam pó, olhando-a e em volta, como se avaliando qual o exército que ela teria do lado de fora daquela porta.

– Uma mulher… – foi o que ela percebeu do palavreado cantado de um deles. Alguns emitiram uns roncos concomitantes e apertaram os dedos sobre as armas que transportavam.

– Esperem! – o miúdo pediu, olhando-a. O rosto dele… algo no rosto dele fazia-a recordar alguma coisa.

O miúdo continuou a palrar em Castelhano, sem tirar os olhos dela. Olhos azuis, as sardas, o cabelo muito sujo, coberto de cinza, os traços do rosto…

– Falas Português? – perguntou-lhe, vendo-o hesitar entre um pé e o outro.

– Nasci em Alcobaça – assentiu.

Um dos outros apertou-lhe o torso com o antebraço, encostando a lâmina da faca na garganta do miúdo. O impacto sacudiu-lhe o pó, destapando o ruivo vivo dos cabelos. Ele era a imagem chapada dela… dela, a pessoa que ela era no ano de 2014. Os traços do rosto eram os seus, as sardas, o ruivo característico. Era isso que ela tinha a fazer ali? Não fazer, mas impedir?

Sem hesitar deixou a pá cair sobre a cabeça do espanhol que o agarrava. O crack ecoando pela barraca de pedra. O miúdo caiu de joelhos sobre o chão de lajes. Os outros avançaram sobre ela e, um a um, viram a força do corpo daquela padeira. Deixou que o espírito aguerrido da outra a invadisse e matou-os a todos. Arrastou cada um dos sete corpos de volta ao forno e pegou-lhes fogo.

Virou costas ao cheiro a carne queimada e saiu do barracão.

O miúdo já lá não estava, rastejara dali para fora no meio da confusão. Procurou-o nos campos em volta, até onde os olhos conseguiam perscrutar na escuridão que avançava. Não o viu. Esforçou a vista e avançou uns passos. E os contornos da terra voltaram a tremer, trazendo-a de volta à vida… à sua.

Correu para o álbum de fotografias da família. Ali estava ele. Não Ele, claro. Ele, nas suas próprias feições. Ele, no rosto do seu irmão mais novo… O miúdo que ia perdendo a vida sob a pá da Padeira de Aljubarrota. Às vezes, era preciso matar o passado. Outras, permitir-lhe viver, para que inúmeras outras vidas pudessem existir.

migalhas de ontem

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