Anna sentia-se zonza e com o corpo dorido. Os membros pareciam-lhe estranhamente pesados, quase como se lhe tivessem colocado um peso em cima. Abriu os olhos e deparou-se com o rosto da irmã. As lágrimas escorriam-lhe pelo rosto e tinha os olhos vermelhos de tanto chorar. Tentou sentar-se, mas foi de imediato atingida por uma tontura.

– Piolho, tu estás bem? Estás ferida? Por favor, fala comigo…

Com algum esforço, Anna sentou-se.

– Devagar. Bateste com a cabeça.

Anna levou a mão à nuca. Ainda tinha a cabeça dorida. Sentiu o couro cabeludo húmido e uma dor aguda. Tirou a mão. Estava ensanguentada. Tentou colocar as ideias em ordem. Estava uma enorme confusão na sua cabeça, não se conseguia recordar ao certo do que tinha acontecido. Olhou em redor e tentou perceber onde se encontrava.

O corredor de betão da fortaleza encontrava-se carregado de corpos, quer de humanos quer de demónios. Aos poucos, as memórias começaram a voltar.

– O pai… – murmurou enquanto se tentava levantar.

– Anna, tem calma.

– O pai estava a lutar com os demónios, temos de o ajudar.

– Anna, já acabou. O combate terminou.

Tentou assimilar aquela informação. Se o combate tinha terminado, então onde estavam os pais? Porque é que estava sozinha com a irmã? Porque é que ainda estava caída no interior da fortaleza no meio de cadáveres? Quando formulou a resposta na sua mente não quis acreditar.

– Não…

Apoiando-se na parede, levantou-se e caminhou para a câmara. Ao seu lado, Nadieh ajudava-a a manter o equilíbrio.

– Por favor, Anna, vamos para casa.

– Não, eu tenho de ver.

O cenário no interior da câmara central não podia ser mais desolador e macabro. As paredes estavam cobertas de sangue, pelo chão, havia um sem número de corpos espalhados, alguns deles desmembrados e quase irreconhecíveis.

Anna avançou por entre aquele mar de cadáveres. O cheiro era nauseabundo. Caminhou até ao centro da câmara, onde se encontrava o suporte para o pequeno baú de metal. Este tinha desaparecido. Procurou por entre os rostos sem vida caídos no chão, ainda alimentada pela esperança de estar errada. Encontrou aquilo que mais temia, o corpo do pai, caído no chão e trespassado pela própria katana. Estava pálido, mais pálido do que Anna se recordava. Os seus olhos estavam baços e escorria-lhe um fio de sangue pela boca.

Nadieh abraçou a irmã e obrigou-a a desviar o olhar. Ficaram assim, abraçadas, a chorar a morte do pai.

– A mãe?

A irmã abanou a cabeça e escondeu o rosto.

Anna perdeu a noção do tempo. Chorou até ficar sem lágrimas e lhe doer o peito. Tudo o que amava fora-lhe retirado; sobrava-lhe apenas a irmã.

***

Sentada no chão, Anna observou o nascer do Sol. Fora uma noite longa. Com ajuda da irmã sepultara os pais. Queria fazer o mesmo pelas restantes pessoas, mas não lhe era possível. Os demónios tinham morto todos os habitantes da colónia, as únicas sobreviventes eram ela e a irmã. Quando os demónios forçaram a entrada na cave, Nadieh escapara por uma segunda saída construída pelo pai. Infelizmente, a mãe não conseguira fugir a tempo. Escondera-se na floresta e aguardou até os demónios partirem para procurar a irmã e o pai.

Ao ver o Sol erguer-se no horizonte, Anna tomou uma decisão. Não descansaria até que encontrasse a mulher de cabelos roxos e vingasse a morte da família e dos habitantes da colónia de Drunen. Talvez, com alguma sorte, conseguisse recuperar o pequeno baú de metal e os cristais. Afinal, com toda a colónia morta, ela e a irmã eram agora as últimas guardiãs do tesouro mais precioso da Humanidade.

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