Vários fogos iluminavam as ruínas da pequena cidade, conferindo um tom alaranjado aos edifícios.

Ainda com a mãe e com a irmã a chamarem por si do interior da cave, Anna correu na direcção dos gritos, rumo ao centro da cidade. À medida que avançava, o fumo dos incêndios tornava-se cada vez mais espesso. Tossiu enquanto procurava abrir caminho por entre a vegetação que tomara conta das estradas.

A pequena fortaleza construída pelos habitantes na praça da cidade estava sob ataque. Vários demónios alados, que faziam lembrar uma mistura bizarra entre um réptil e um morcego, lançavam-se sobre os humanos em voos de rapina. No solo, os homens da cidade tentavam fazer frente às criaturas com espadas, bastões, pás e outras armas improvisadas. Porém, não eram guerreiros, apenas gente normal que tentava sobreviver naquele mundo cruel e proteger o seu tesouro mais precioso.

Anna preparou o arco e as flechas e avançou. Conforme corria para a fortaleza atirou sobre um demónio que voou na sua direcção. Atingiu-o entre os olhos com a flecha. A criatura caiu sobre a carcaça de um velho automóvel, mas foi rapidamente substituída por outra. A jovem voltou a disparar, atingido o segundo demónio na membrana que formava a asa.

Alcançou a parede da fortaleza com quase metade das flechas com que tinha iniciado a corrida. Abatera quatro demónios e ferira outros seis. Contudo, os seus esforços pareciam não ter resultados práticos naquela luta desigual.

Seguiu em direcção ao portão. O chão estava coberto de cadáveres humanos, muitos deles desfigurados pelas garras dos demónios. De vez em quando, surgiam membros ou outras partes anatómicas arrancadas do corpo do proprietário. Anna sentia um medo terrível de encontrar o pai entre os combatentes caídos.

A pesada porta blindada que formava o portão da fortaleza fora arrancada da parede. As marcas das garras dos demónios cobriam o metal da porta. O tesouro que a população tanto se esforçava por proteger estava agora à mercê das criaturas.

Avançou pelo corredor de betão até à câmara central. As paredes estavam cobertas de sangue e o chão de corpos. As portas de segurança entre as várias secções tinham sido arrancadas ou simplesmente destruídas. Parecia que nada conseguia fazer frente à força selvagem daquele exército.

Estacou ao chegar à câmara central. Ao fundo, o pai e mais alguns homens faziam frente a um grupo de demónios, tentando proteger o pequeno baú de metal e os preciosos cristais. Preparou o arco e abateu uma das criaturas com um tiro certeiro no crânio. Disparou uma segunda flecha, mas esta parou em pleno ar, como que por magia.

A figura de uma mulher saiu de entre o grupo de demónios e avançou na sua direcção. Tinha a mão levantada em direcção à flecha e um olhar que não enganou Anna. Sobre o corpo esguio, trazia uma peça única de cabedal negro que lhe assentava na perfeição, contrastando com a tonalidade clara da pele. Os longos e lisos cabelos roxos caíam-lhe pelas costas até à cintura, mas eram os olhos negros, sem íris, que a denunciam como sendo aquilo que ela realmente era: um demónio.

A mulher caminhou calmamente na sua direcção. Consciente do perigo em que se encontrava, Anna pegou em mais uma flecha e preparou-se para disparar. Colocou a extremidade da flecha na corda do arco e puxou. Foi surpreendida por um demónio que lhe saltou em cima, atirando-a contra a parede, fazendo-a perder o disparo. Debateu-se contra a criatura, colocando o arco entre o seu corpo e as garras da besta. O demónio avançou, empurrando-a para trás. Tentou resistir, mas a besta era demasiado forte. Com um puxão rápido, a criatura arrancou-lhe o arco das mãos, fazendo-a desequilibrar-se. Atingiu-a de seguida com a longa cauda no peito, atirando-a contra a parede.

Anna bateu com a cabeça na parede de betão. O mundo ficou turvo perante os seus olhos e foi assaltada por tonturas. Esforçou-se por se manter em pé, mas os joelhos cederam. Caiu ao chão e tudo ficou escuro e silencioso.

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