As duas irmãs avançaram pelas ruas desertas de Drunen, transportando o resultado da caçada nas mochilas. O sol estava quase a pôr-se e não seria seguro ficar no exterior por muito mais tempo.

Caminharam até à velha casa abandonada ao fundo da rua. Junto ao que restava da habitação, estava a carcaça de um velho automóvel carbonizado. O matagal crescia em redor deste, começando a cobrir o capô do veículo.

Nadieh aproximou-se da parede pintada de negro pela fuligem. Desviou os arbustos que cresciam entre a casa e o que restava do automóvel, colocando a descoberto a porta do alçapão para a cave. Bateu quatro vezes na porta de metal.

A escotilha abriu-se e revelou dois olhos azuis, fechando-se de imediato.

Anna e Nadieh aguardaram enquanto o pai lhes abria a porta. Com um sorriso no rosto, Thijs Geerlings recebeu as filhas de braços abertos.

– Estava a ficar preocupado. O dia está a acabar e vocês não voltavam.

– Acho que a Nadieh conseguiu afugentar tudo o que era caça num raio de quilómetros. A bicharada deve sentir a presença dela…

– És mesmo parva!

– Estou só a brincar – respondeu Anna. – Mas hoje valeu a pena a espera. Temos aqui uma surpresa para ti.

A jovem tirou a mochila das costas e abriu-a, revelando o seu conteúdo.

– Cervo? – questionou o pai.

– Um macho adulto – confirmou Anna. – Não conseguimos trazer tudo, era demasiado grande. Deixámos o resto para os lobos e para as raposas.

– Trazemos mais do que suficiente para a semana e ainda deve sobrar para trocar com os Spronk por farinha ou pão.

– Óptimo! Isso são óptimas notícias. Agora entrem, quero fechar a porta antes que o Sol se ponha – declarou Thijs, fazendo sinal às filhas para que descessem.

 Já no interior da cave que servia de casa à família Geerlings, Nadieh juntou-se à mãe na cozinha, ajudando-a a preparar o jantar, enquanto Anna e o pai arrumavam o equipamento de caça. Apesar de viverem na cave de uma antiga moradia, Thijs conseguira ampliar a mesma ao longo dos anos com ajuda da mulher e das filhas. O facto de haver poucos demónios na zona facilitara o trabalho, permitindo à família expandir a casa e conseguir algum conforto. Travava-se de um luxo quando comparado ao que muitas famílias passavam.

Reunidos sob a luz das velas, a família sentava-se em largas almofadas, enquanto comiam o jantar.

– Amanhã vou com a Nadieh apanhar algumas bagas e frutos à floresta. Tenho uma ideia que vai ficar óptima com o cervo que as tuas filhas apanharam – comentou Laura. – Achas que consegues trocar alguma daquela carne por farinha e ovos? E leite, já agora…

– A farinha e os ovos não devem ser problema, quanto ao leite…

– Houve algum problema? – perguntou Anna.

– Falei com o Erik Meer esta tarde. O gado dele foi atacado ontem à noite por demónios. Não sei se terá o suficiente para dispensar, mas eu tento falar com ele.

– Já é a segunda vez este mês – comentou Nadieh.

– Parece que…

Ouviu-se um estrondo e as paredes da cave abanaram, seguindo-se o som de gritos vindos do exterior.

Thijs levantou-se e apanhou a katana que estava encostada à parede.

– Fiquem aqui – ordenou enquanto corria para a porta da cave e espreitava pela escotilha.

– Pai, o que se passa? – questionou Nadieh.

– Demónios…

Outra explosão e a cave voltou a tremer.

– Os cristais… Fiquem aqui. Aconteça o que acontecer, não abram a porta.

Sem esperar pela resposta da mulher e das filhas, Thijs saiu da segurança da cave para o caos da batalha que se travava no exterior.

– Pai, não! – chamou Nadieh.

Aguardaram junto à porta por um sinal. As explosões e os gritos sucediam-se, fazendo com que os minutos de espera parecessem horas.

Anna andava de um lado para o outro da cave, tentando libertar o stress, mas a preocupação não a deixava. Era o seu pai que estava lá fora. Outra sucessão de gritos fê-la tomar a decisão. Sem dar tempo para que a mãe ou a irmã a impedissem, pegou no arco e nas flechas e correu para o exterior.

– Anna! Onde é que pensas que vais?

– Anna, volta! – ouviu a mãe chamar.

– Vou buscar o pai – declarou, mesmo antes de fechar a porta da cave.

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