O som ecoava nos seus ouvidos: grave e metálico, repetindo-se na sua cabeça. Sinos. Sinos de casamento. Estremeceu. Os olhos tremeram por baixo das pálpebras.

Quando os abriu, não reconheceu o lugar onde se encontrava. Parecia-lhe a sala de sua casa. As diferenças, no entanto, por mais subtis, eram as suficientes para saber que não.

“Onde estou?”

– Comigo.

Sobressaltada, virou ligeiramente a cabeça, inspirando fundo ante a vaga de dor que o movimento lhe causara. Apercebeu-se que estava deitada num dos sofás. A seu lado, na poltrona que anteriormente albergara Leonor, sentava-se um homem de fato e gravata cinzentos, perna cruzada, e um charuto descontraidamente numa das mãos. Era belo. A percepção do facto fazia-se presente, contudo, não era capaz de o descrever. A sua forma parecia insubstancial, esbatida ou borrada… Como se fosse demais para a sua visão ou compreensão.

– E sou, querida, e sou.

O que lhe acontecera?

– Onde estou? O que…?

As memórias dos últimos minutos tomaram-na de rompante. O monstro! Isabel! A tentativa que ela… O quarto! A luta… A faca, a faca na sua barriga… Um grito cortou pela sala, como que arrancado da sua garganta. O homem não se mexeu, limitando-se a levar o charuto aos lábios, esperando que o grito se tornasse nas inevitáveis lágrimas.

– É um choque, querida, mas habituas-te – disse, por fim. – Eu, por exemplo, não te esperava tão cedo, mas aqui estamos, e cá nos resolveremos.

– Não me…?

Ele pousou o charuto sobre o cinzeiro no braço da poltrona. Beatriz não se lembrava da existência de um cinzeiro segundos antes. Lentamente, a rapariga deslizou as pernas para o chão e levantou o torso, sentando-se. A pressão sobre a sua cabeça ainda se fazia sentir, dificultando-lhe a concentração e o pensamento. Tentara matar o futuro cunhado. Falhara. Ferira-se no processo. Não devia estar ali, devia estar num hospital, ou pelo menos…

– Morri?

A pergunta fora mais de incredulidade que de constatação.

– Sempre tão surpresos – suspirou o homem. – Não compreendo, não sabem que mais tarde ou mais cedo é assim que acabam? E tu, minha querida, foste mais cedo. Exactamente duas semanas mais cedo, tsc, tsc, tal a impaciência humana… E aquele pobre homem, com o casamento adiado por tua conta. Era perfeito como estava, o dia feliz coincidindo com o término do seu acordo comigo, compreendes? O efeito que isso causaria… Mas paciência, estás aqui, e a tua alma pertence-me, com ou sem casamento.

Beatriz levou os dedos às têmporas, massajando-as. Talvez estivesse numa cama de hospital. Ou de um hospício. Ela, que sempre fora tão rápida na compreensão, julgava agora que se tinha tornado lenta.

– Aquele monstro… – repetiu. – Aquele monstro tem um acordo contigo? E a minha alma é o preço? Eu estou… Tu… O Demónio?

Ele descruzou a perna, erguendo-se.

Um demónio será mais correcto, querida, mas não penses logo mal de mim. Recorda a paciência com que aqui estou a integrar-te. Não é caridoso da minha parte? Anda. – Ofereceu-lhe a mão, que ela instintivamente agarrou, e ajudou-a a levantar-se. – O Inferno é um local atarefado, e nunca há excesso de almas a laborarem.

Eu fui a mercadoria do acordo!?”

Retirou a mão com brusquidão, recuando. A zanga que se lhe tornara tão familiar retomara.

– Eu não sou…

– Não, querida, não. O acordo que esse teu “monstro” fez foi apenas o de não cortar pêlo e unhas durante sete anos. Ele deveria ter desconfiado, não deveria? Apenas isso por tanta riqueza, mas não conseguiu ver a armadilha, porque para ele não havia nenhuma. As minhas almas, se conheces as velhas histórias, chegariam pela mesquinhez e inveja das irmãs, quando vissem o que a noiva ganhou e elas perderam. Mercadoria, querida, é algo que tu própria criaste.

Beatriz abriu e fechou a boca consecutivamente.

– Desgraçado!

Atirou-se a ele num desespero de pânico e raiva, tentando esmurrar, pontapear, morder… Pesar, sofrimento, qualquer coisa que infligisse…

O espaço vazio onde antes se encontrava o demónio fê-la embater contra uma mesa. A dor ferveu-lhe pelo corpo, fazendo-a uivar.

– Temo que aqui os teus nervos são bastante mais sensíveis – explicou o demónio, atrás de si. – Políticas do local, compreendes. Fomos criados para isso.

Beatriz deixou-se escorregar até ao chão, os soluços entrecortando os gemidos. Abraçou os joelhos, protegendo-se em posição fetal. As explicações do demónio ainda lhe revolviam pela cabeça, ameaçando-lhe a sanidade. “Mesquinhez e inveja das irmãs”. “O que a noiva ganhou e elas perderam”. O que elas perderam… O que Leonor perdeu… Como se Leonor… Leonor…

O riso saiu-lhe num gorgolejo desconexo. Aquela criatura, aquela besta, aquele demónio… Tão esperto que se julgara, tão bom o negócio que fizera, duas almas, achara ele, duas suicidas…

Mas Leonor nunca sentiria inveja ou ciúme por um homem. Era feliz com a namorada. Nunca se mataria por riqueza. Era das três a que melhor se adaptava. A que menos exigia, a que menos esperava…

 – Já nenhuma história é como nas velhas histórias, demónio.

Ele compreendera-a. Ouvia-lhe os pensamentos da mesma forma que lhe ouvia as palavras. Se desconcertado, não o demonstrou.

– Talvez – pareceu hesitar. – Mas a tua alma, pelo menos, já é minha. E da monstruosidade que é este castigo, Beatriz, não há beleza que escape. Sê bem-vinda, querida.

A Bela e o Monstro parte 3

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