Beatriz ergueu a cabeça do lavatório e deparou-se com o próprio reflexo no espelho. Fixou-se durante uns segundos, antes de pegar na balança e a atirar contra o vidro, espalhando-o em fragmentos pela casa-de-banho. Alguns pedaços passaram-lhe pela cara, marcando-lhe a pele com finas linhas avermelhadas. Que se danasse! Juntou-se assim mesmo ao pai e às irmãs na sala. O convidado já lá se encontrava, e cada um deles não deixava de lhe reagir. Leonor encolhia-se contra as costas da poltrona onde se sentava, procurando fazer-se o mais pequena possível. O pai, de pé, servia dois cálices do melhor Porto que possuíam, falando com um nervosismo disfarçado. Isabel sentava-se ao lado do noivo, um sorriso preso nas suas feições, enquanto manejava para não o olhar sem roçar a rudeza.

Apenas o noivo parecia sentir-se confortável. Como era coisa que Beatriz não compreendia, mas pouco havia que conseguisse compreender naquele homem. O pai assegurava que era um dos empresários mais ricos do país, e, no entanto, vestia-se como um sem-abrigo, as roupas gastas, rasgadas e sobrepostas. O cabelo descia-lhe, sujo e desgrenhado, até meio das costas, e mesmo as unhas pareciam não ser cortadas há anos, crescendo amareladas e bem mais do que o humanamente aceitável.

E era com aquilo que Isabel iria trocar votos matrimoniais.

– Beatriz! – exclamou o pai, notando a sua presença. – Que te aconteceu à cara!?

Beatriz levou os dedos aos cortes, sentindo-lhes a ardência. Não respondeu.

– Vai lavar isso, querida, ainda infecta.

– Oh? O meu estado é preocupante, mas o dele não?

O cálice caiu na carpete, o líquido que se esparramou sendo rapidamente absorvido numa mancha escura. O sorriso forçado de Isabel morreu no mesmo instante, à medida que a irmã se fixava nela, as linhas do rosto endurecendo. Leonor levou as mãos à boca, tentando ocultar o riso.

– Beatriz, desculpa-te imedi…

– Não é necessário. – A voz rouca do convidado fez-se ouvir. Beatriz estremeceu. Alguma coisa naquele tom exigia que atenção e respeito lhe fossem prestados. Confiança, talvez, ou um hábito de liderança. Parecia rugir nas suas palavras. Não era humano. – É uma reacção natural. Nunca espero outra coisa. Mas, com o tempo, acredito que nos possamos conhecer melhor. Em breve seremos família.

A ideia enojava-a. Desculpando-se, Beatriz abandonou a sala. Isabel não merecia aquilo, e muito menos sabia o que fazia. Era ainda jovem. Era irresponsável.

Mas Beatriz não. E se a irmã não tinha ainda o siso suficiente para tomar decisões responsáveis, Beatriz tomá-las-ia por ela.

***

A porta rangeu ao de leve quando a fechou atrás de si. Controlando a respiração, esperou por alguma reacção vinda do vulto coberto sob a cama. Nada. A penumbra pesava sobre ambos, ocultando e protegendo em simultâneo. Os olhos, já habituados à escuridão, vagaram pelo quarto de hóspedes. Era raro ali entrar, mas conhecia o compartimento o suficiente para evitar tropeçar ou despoletar qualquer barulho desnecessário. Apertou entre os dedos a faca que surripiara da cozinha e avançou, um pé seguindo o outro. Cautelosa e temerosa. Era pelo melhor. Era por Isabel. O chão rangeu sob si, fazendo-a estacar. O coração batia-lhe com tamanha intensidade que lhe sentia a pulsação nos ouvidos. Um ligeiro ressonar almofadava a escuridão. Aliviada, continuou, aproximando-se do leito que albergava o monstro. Os cabelos desgrenhados espalhavam-se pela almofada e pelo lençol, emaranhando-se com a barba. Beatriz mal lhe discernia as feições. “É com o pescoço que tens de te preocupar”, recordou-se. Estendeu a mão, os dedos pequenos parecendo cinzentos na noite. Tocou-lhe ao de leve nos pêlos, estremeceu, e afastou-os, expondo a carne macia. Pousou a faca sobre a pele, estacando subitamente. Silêncio.

O ressonar desaparecera.

Ergueu os olhos, encontrando-o a fixá-la, as pálpebras abertas e um sorriso nos lábios. A faca bateu de encontro ao chão, enquanto recuava, tropeçando na mesinha-de-cabeceira e magoando os calcanhares desnudos. O monstro erguera-se, abandonando os cobertores e o colchão. Beatriz sabia que ainda sorria, os dentes escondidos atrás dos lábios, como se tivesse presas a querer esconder. Mas não lho via. A penumbra não lhe permitia, e apenas podia saber, sentir, mas não ver.

O vulto debruçou-se, pegando na faca e girando-a nas mãos. Ia matá-la. Sabia o que ela tentara fazer. Sabia, e vingar-se-ia.

Mas não se ela o deixasse. “Eu não sou a Isabel”, pensou. Não era pessoa para deixar que a sua vida ficasse nas mãos de outros. Muito menos de um monstro. A boca contorceu-se num esgar zangado. Não era justo. Nada daquilo era justo para ela ou para as irmãs.

Voltou a caminhar na direcção do monstro, a rapidez e a agressividade tomando o lugar da cautela e do temor anteriores. O corpo embateu contra o dele, arranhando-o e esmurrando-o, numa batalha para alcançar a faca. Sentiu-o revidar, tentando afastá-la, mas ela era agora demais e demasiado para que pudesse ser contida. Arranhou. Mordeu. Lutou.

– Beatriz!

O rosnado que era a voz dele acompanhou o perfurar da dor. A sensação de humidade começou a espalhar-se-lhe pelo ventre. Estacou, incapaz de se insurgir mais contra ele. Sentiu-o pegar-lhe e deitá-la na cama. O vulto estremecia, soluçava.

– Foi aquele maldito, aquele maldito que te fez isto! Eu devia saber, eu devia ter sabido…

Não o compreendia. Talvez não percebesse as palavras que dizia. Talvez lhes desse uma forma e significado que não tinham. Levou as mãos à dor, sentindo a humidade pegajosa passar-lhe para os dedos.

Falhara. A irmã seria do monstro.

A Bela e o Monstro parte 2

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