Ela tinha acompanhado as notícias desde que se lembrava. Era algo essencial, caso realmente quisesse seguir carreira como intérprete. Contudo, se lhe pedissem que indicasse o momento preciso em que tudo começara, Beatriz não seria capaz de o fazer. Não houvera um acontecimento milagroso que indicasse Eu, eu comecei tudo, não. Tinha sido um conjunto de factores, uns maiores, outros mais pequenos, que tinham convergido, rodando uns nos outros até a compreensão da sociedade em geral se ter tornado inevitável: tinham entrado num dos ciclos de crise económica. Adeus salários, adeus regalias, adeus direitos. Por vezes, adeus vida.

Em casa fora mais ou menos a mesma coisa. Não sabia precisar como nem quando começara, mas uma tarde o facto aparecera-lhe na mente, luminoso e óbvio, e apercebera-se que já antes o sabia. O mau humor do pai e as horas extra na empresa. As zangas com a governanta, que subitamente deixara de saber “gerir convenientemente as despesas da casa”. A insistência com ela e as irmãs de que lhes faria bem um emprego de Verão. A pressão sobre a irmã, a pobre Leonor, para que mudasse para Direito – afinal, “História não dá nada!”

Também a família estava em crise, incapaz de escapar às mesmas dificuldades que a maioria. O pai, no entanto, não fora capaz de lhes dizer. Beatriz julgava que por orgulho ferido, por saber que a promessa feita à falecida esposa lhe escapava por entre os dedos: cada vez menos era capaz de olhar por elas. Um falhanço. Quando se tornou inevitável que elas o soubessem, Beatriz compreendeu haver mais senso por detrás da decisão do pai do que julgara a princípio: Leonor, num acto de nervos, fugira para casa da namorada, enquanto Isabel dava azo à sua zanga, sem dó dos objectos que lhe apareciam pela frente.

– Mas há uma solução…

As palavras do pai tinham sido sussurradas, quase uma desculpa por entre a histeria de Isabel. Ainda assim, a filha ouviu-o, estacando para o escutar. Quando o pai lhes explicou o que tinha em mente, foi a vez de Beatriz elevar a voz.

– Eu não vou ser vendida a um estranho como se fosse mercadoria!

– Não o coloques nesses termos, filha, casamentos destes sempre se fizeram, e na sua altura duravam mais que os de hoje.

– Porque não havia hipótese de divórcio! – exclamou Beatriz, mal acreditando no que ouvia. – Pai, ouça o que está a dizer! O pai nem sabe como é este homem, nunca o viu, os negócios são sempre feitos por outra pessoa…

– Por isso é que deixei estipulado que qualquer uma de vocês poderia recusar depois de o ver – cortou o pai, sibilando por entre os dentes. – Não sou um vilão, querida. Vocês vão vê-lo antes do casamento.

– Ah, que caridoso da sua par…

– Eu aceito.

Isabel, que tinha permanecido em silêncio até ao momento, chamou a atenção para si. O pai fixou-a num misto de alívio e incerteza, enquanto Beatriz entreabriu os lábios, os olhos dardejando na direcção da irmã.

– O quê?

– Tu fizeste a tua escolha, eu faço a minha – retorquiu Isabel, deixando-se cair no sofá do escritório. – Não suporto a ideia de não ter o que quero, mana, não suporto! E sentimentos são muito bonitos, mas o que compra as coisas é dinheiro. Se um casamento é tudo o que é preciso para salvar a empresa do pai… Amor e uma cabana não é para mim.

Isabel era linda. A rapariga mais bonita que qualquer um conhecia, a mais bonita das três irmãs, e também a que mais mimada fora. Mas não era idiota e, até ao momento, Beatriz também julgara que não era pessoa para se desrespeitar.

– Não podes… – começou.

– Posso e vou – interrompeu Isabel. – Estás sempre a falar da luta pelo direito da mulher em escolher, mana. Não sejas agora hipócrita. Papá, quando é que posso ver o meu noivo?

O pai gaguejou, dividido entre o alívio pela aceitação imediata de Isabel, e o sentimento de culpa despoletado por Beatriz. A saída fácil, no entanto, era demasiado atraente. E a própria filha puxava a si a responsabilidade da escolha.

– Quando quiseres, minha rosa.

– Amanhã?

No dia seguinte não poderia ser. Havia ainda que contactar o porta-voz do futuro noivo, acertar com a sua disponibilidade,…

– Esta semana, então.

O pai acordou. Nessa semana seria.

A Bela e o Monstro parte 1

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