Escondido atrás de uma parede no prédio devoluto, Enlil espreitava a rua através da janela partida. Estava deserta. A vegetação crescia por entre as carcaças de automóveis abandonados e ferrugentos, uma selva em plena cidade de Londres. Ali no terceiro piso tinha uma vista privilegiada da avenida, essencial para que o plano corresse bem.

Desviou o olhar da estrada e fez sinal para o edifício do outro lado da rua. Um homem de vestes negras respondeu-lhe com um aceno de braço. Estava quase na hora. Agachado junto à janela, aguardou.

Reviu a estratégia na sua cabeça pela enésima vez. Estava habituado àqueles golpes, às manobras de distracção, mas desta vez o alvo era diferente. Se falhasse não se limitava a voltar de mãos vazias. Era a sua vida e a dos seus homens que estavam em jogo.

Voltou a fixar o olhar no fundo da rua. Mas por que raio estariam a demorar tanto? A informação seria errada? Teriam sido descobertos?

Alguém lhe tocou no ombro fazendo-o esquecer aqueles pensamentos.

– Senhor, o grupo na rotunda já os localizou. Estão a aproximar-se – declarou um dos seus homens.

– Óptimo. Façam uma última verificação ao equipamento e às rotas de fuga. Não quero falhas.

O homem de vestes negras acenou com a cabeça e afastou-se, deixando Enlil de novo sozinho.

Aquele plano não era do seu agrado, mas as ordens do pai eram para ser cumpridas. Voltou a focar a atenção na rua.

Os grunhidos e rugidos ecoavam através dos edifícios. Ao fundo da avenida, um grupo de demónios avançava em marcha lenta.

Enlil voltou a fazer sinal ao Sombra Negra de vigia no outro lado da rua. Também ele já tinha avistado o grupo.

Na frente seguiam criaturas mais pequenas, de pele cinzenta, de crânio alongado e caninos salientes. Atrás seguiam outras espécies, demónios encorpados, alguns com ar reptiliano, outros com corpo coberto de pêlo e caudas compridas.

– Aqui está algo que não se vê todos os dias…

As informações que tinham passado ao pai não estavam erradas. Tratava-se de uma escolta composta por várias espécies de demónios, algo bastante raro. No geral tratava-se de um conjunto imponente. Só um louco ousaria fazer frente a uma força daquelas, e era isso mesmo que ele se preparava para fazer.

Pegou no machado de guerra, que trazia às costas, e aguardou o momento para dar o sinal.

Entre os demónios do grupo, procurou aquilo que o levara até ali. Não demorou a encontrá-lo. No centro da escolta caminhava uma. Era atraente, tinha formas femininas bem definidas e um tom de pele claro. Os seus eram cabelos roxos e vestia um fato de cabedal negro. Um bom disfarce que não enganava Enlil. Já ouvira histórias sobre ela, e não era humana. Leviatã, um dos generais do exército das Trevas, escondida debaixo daquele disfarce frágil e tentador, era uma criatura mortífera.

A líder do grupo transportava com cuidado um pequeno baú metálico.

Porque estariam os demónios tão interessados nos cristais? Enlil não fazia ideia, mas não podia deixar de dar razão ao pai. Se os demónios queriam os cristais, então deviam valer bom dinheiro.

O grupo ficou finalmente em posição.

– Hora do fogo-de-artifício – comentou, fazendo sinal ao companheiro.

Enlil procurou refúgio atrás da parede e baixou-se. Ouviu-se um estrondo e todo o edifício tremeu, fazendo gemer os alicerces.

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