A primeira coisa que chamou a atenção no Visitante foi o facto de ter chegado à aldeia sem usar qualquer tipo de transporte. Nem o óbvio jipe, nem sequer uma mota, um cavalo ou mesmo um camelo. Afinal, a aldeia ficava completamente perdida junto a um monte no meio do deserto, e não aparecia na maioria dos mapas.

Se esse facto já deixou os habitantes de pé atrás, quando olharam melhor para o rosto exótico do Visitante, não sobraram dúvidas de que ele não era quem parecia. Sendo uma aldeia muito apegada às tradições, rapidamente perceberam quem estava perante eles. Isto porque os seus olhos, apesar de à primeira vista parecerem humanos, não o eram. Não. Fitando-se-lhe os olhos, via-se um universo de chamas. E mais, apesar de estar a anoitecer e a arrefecer muito rápido, o Visitante usava uma camisa de mangas curtas. Quem se aproximou dele nessa altura disse, mais tarde, que começou mesmo a sentir calor.

O Visitante pediu para chamar o chefe da aldeia. Quando este se lhe apresentou, encontrava-se receoso, embora fizesse questão de não o demonstrar.

– Que queres de nós? – perguntou o velho homem – Sabemos o que tu és.

– Calma, ancião. Não vos quero mal. Só quero saber do vosso hóspede.

– O que queres tu do Forasteiro?

–“Forasteiro”, hmm? Apropriado. Quero falar com ele. Só isso.

– Nunca é “só isso” com os da tua espécie.

O Visitante sorriu. Arguto, o homem. E com coragem. Se realmente sabia o que ele era e mesmo assim lhe falava naquele tom…

– Vamos deixar-nos de tretas, velhote. Quero falar com esse homem. Apenas isso. Depois deixo-vos em paz. Dou-te a minha palavra. Ou estás a pô-la em causa?

– Não, não estou… – O homem suspirou. – Não tenho grande escolha, seja como for. Segue-me.

O chefe da aldeia levou o Visitante ao Forasteiro, que se encontrava alojado numa cabana velha, na porção da aldeia mais afastada do monte.

Quando entraram, o Forasteiro ergueu os olhos e disse, com um tom que traduzia mais conformismo que surpresa:

– Oh. És tu. Olá.

Pela primeira vez desde que o Forasteiro se abrigara naquela aldeia, o ancião notou que também havia algo de errado nos olhos dele. Só que ao contrário do Visitante, o hóspede passava bem por humano, com o seu rosto engelhado e imperfeito, e a sua postura cansada… Conheciam-no quase sempre cabisbaixo, com roupas gastas, falando pouco com a sua voz suave e pausada. Só que na presença do outro, pareceu aumentar de tamanho, e assumir uma atitude algo mais altiva. E quase se poderia dizer que ficara mais novo. Era um deles, então. Não do mesmo tipo que o Visitante, mas um deles de qualquer modo. O que explicava a sua capacidade de produzir refeições, roupa e outros bens necessários, aparentemente a partir do nada, coisas essas que o Forasteiro sempre partilhara com a aldeia. E nunca deram por nada, apercebeu-se o ancião. Houve até quem dissesse que ele as ia roubar a outro sítio, o que era um disparate, porque ele nunca abandonava a aldeia.

– Sim, sou eu. Finalmente te encontro, meu amigo. Reconheço que desta vez não me facilitaste a vida. Há quanto tempo estás escondido aqui? – perguntou o Visitante.

– Ora, vim para cá logo a seguir ao nosso último encontro. Mais ou menos há dez anos.

– E neste tempo todo conseguiste que ninguém descobrisse quem eras? Fantástico! Suponho que não concedeste desejos…

– De forma aberta, não – reconheceu o Forasteiro. – Isso chamaria demasiado a atenção, não era? Mas usei as minhas habilidades para pagar a minha estadia.

– Hmm, bem jogado – concedeu o Visitante. – Conseguiste ter um comportamento honrado, como te compete, sem te denunciares.

– Obrigado. – O Marid assumiu a sua forma verdadeira, o que fez cair o queixo do velho, que assistia a tudo, já esquecido pelos dois Jinn. – Agora é a tua vez de te esconderes e de eu te procurar. Oh, adoro fazer isto!

– Sim, reconheço que este passatempo dos mortais é bastante engraçado – afirmou o Ifrit, irrompendo em chamas. – Não te esqueças, tens de contar um ano antes de ires à minha procura. Não quero batotas!

– Não te preocupes – respondeu o outro. – Não sou como tu, que tens a mania de te esconder em vulcões e outros sítios do género, a julgares que fica mais difícil encontrar-te.

– Hmpf – resmungou o Ifrit. – Só achas mal porque ficas chamuscado. Bom, até à próxima! – E levantou voo, deixando no céu estrelado um rasto de chamas que ficou visível vários minutos.

– Até à próxima – murmurou o Marid, assumindo novamente forma humana. A sua existência milenar era muito menos entediante desde que ele e o amigo haviam resolvido começar a jogar jogos humanos, sendo este, “às escondidas”, o seu favorito.

Só o aborrecia ter de esperar um ano até poder ir procurar o outro. Ponderou se seria tão grave assim fazer um bocadinho de batota. Só um bocadinho…

O Visitante e o Forasteiro

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