Ela acabou por entrar no carro e seguir connosco, apesar dos protestos da Soraia. Mas, a verdade é que nenhum de nós sabia por onde ir e andávamos às cegas pela estrada enquanto um denso nevoeiro se levantava, dando um ar sinistro e misterioso à serra.

– Adoro o nevoeiro. – Quebrou o silêncio a misteriosa mulher de branco. – A propósito o meu nome é Carla.

Apresentámo-nos e trocámos as banalidades do costume, os nossos gostos, alguma informação acerca de onde vivíamos. Conforme a ia conhecendo melhor ficava com vontade de saber mais, muito além da atracção física que sentia por ela. O carro avançava aos solavancos pela estrada acidentada. Olhava de relance pelo retrovisor para trás e sorria para a nossa convidada.

– Foi aqui que morri. – Estas foram as últimas palavras que ouvi da boca dela antes do carro começar a derrapar e embater contra uma árvore.

Quando recuperei os sentidos estava no hospital.

– A Soraia? – Perguntei à minha mãe que estava na minha cabeceira.

– Ela está bem, felizmente não teve grandes ferimentos, embateram na árvore a baixa velocidade.

– E a Carla?

– Que Carla? – perguntou-me.

– A rapariga que ia no banco detrás.

– Não ia ninguém no carro convosco.

Os meus pensamentos começaram a ficar aleatórios e a minha mente parecia não raciocinar, tudo voltou a ficar negro.

Assim que a pior parte passou, eu não queria acreditar que a rapariga se tinha escapulido do carro e nos deixou desamparados. Quer eu quer a Soraia nos lembrávamos dela perfeitamente. As nossas dúvidas foram esclarecidas pelo Policia responsável pelo nosso caso. Ele duvidava da nossa história, porque a rapariga que tínhamos descrito era parecida com uma que morrera no ano anterior naquela estrada. O seu nome era Carla Pires e o seu carro ficara sem combustível na mesma curva onde tínhamos embatido. Um carro com um condutor desconhecido parara para a ajudar. Ela fora violada por vários homens e deixada para morrer. Na noite do nosso acidente fazia um ano da sua morte.

Passou um ano, e tenho a certeza que ela provocou o desastre, já passei por ali mais vezes procurando-a mas sem sucesso. Esta noite faz dois anos da sua morte temo por quem a encontrar no seu caminho.

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