Sebastian olhava à direita e à esquerda, numa tentativa de absorver tudo o que o rodeava. Parava. Voltava a andar. Procurava coisas novas, relembrando-se sem cessar que precisava ser furtivo. Parava, de novo, fingindo a descontração que não sentia ao observar um qualquer monumento funerário.

Nada de novo naquele lote. Suspirou, empurrou as madeixas de cabelo ralo e sujo da testa, notando as veias que saltavam nas costas das mãos.

Notou um dos montes de terra. Aquela era recente. Considerou trepar a base de pedra de uma das estruturas funerárias, que estava no caminho. Renunciou a ideia com a memória da dor nos joelhos. Os ossos doíam-lhe como um companheiro de todas as horas. Às vezes, parecia que todos os ossos lhe doíam ao mesmo tempo. Decorou o número do lote, descartando o corta-mato e seguiu a estrada.

Talvez sacasse um cordão de ouro, ou uns anéis, uns sapatos caros… Nessa noite havia saque que desse para meia dúzia de doses, antes que tivesse de regressar às sepulturas do Père-Lachaise.

Avançou pela rua acima inspecionando tudo o que pudesse valer uns trocos. O sol vibrava no céu, mas os arrepios sucediam-se. Custava-lhe pensar… E, nos últimos dias tinha sempre frio. Enfiou as mãos nos bolsos do casaco de desporto que vestia. Num dos lados, os pontos do tecido cederam abrindo mais um buraco. Ia precisar dum casaco novo, mas estava no sítio certo para arranjar um.

Cortou à direita, depois à esquerda. Subiu a rua, descendo do outro lado, tapado pela sombra das árvores enormes que transformavam o cemitério num jardim. Voltou a enfiar por uma ruela estreita, entre paredes de mármore.

Deparou-se com outro montículo de terra. Eram mais que os corvos, pensou, satisfeito com o trocadilho. Decorou o número da campa, estranhou. Parecia-lhe o mesmo de há cinquenta ruas atrás. Um labirinto, com campas entaladas no meio de monstros de mármore. Altas, baixas, decoradas, simples, tudo ao molho, sem ordem ou razão.

Ignorou e regressou ao caminho. Voltaria para trás. Subiu a rua, a ligeira inclinação exigindo um pouco mais dos seus joelhos do que ele gostaria. Percorreu outra avenida onde duas mulheres se detinham, de mãos dadas, frente a uma campa muito maltratada. Um pobre velado por duas raparigas novas. Talvez elas deixassem algo de valor, já que o morto não teria nada para lá da roçada roupa do corpo.

Pensou acercar-se, estudar o alvo, mas a rua à direita tinha um residente novo. O jazigo aberto merecia uma inspecção mais próxima. Rumou para lá, mas não foi o jazigo que o agarrou.

Mais um montículo de terra… Com o mesmo número.

Sebastian hesitou, antes de voltar a descer a rua, para longe da morada final daquele monte de terra que o perseguia.

a dança sagrada

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