Vicente ignorou a mordida gelada do banco de pedra no traseiro. Passou as mãos pela cara, esfregando-a com força. O perfume floral de Giulia invadiu-lhe o nariz, fazendo-o estacar. Destapou o rosto, sorrindo ao ver a sua noiva em frente a si. Quieta, tão quieta… a pele alva e os olhos negros fixos nos dele, apenas a dor parecia movimentar o seu semblante. Um momento e Giulia aproximou-se, sentando-se ao seu lado. Tão contida, como se receasse não ser bem-vinda.

– Amor… – Vicente murmurou, virando-se para ela.

– Não digas nada – Giulia pediu, olhando-o nos olhos.

– Perdoa-me.

– Eu é que peço perdão.

– A culpa é minha… – ele declarou, cobrindo de novo o rosto com as mãos.

– Não. Eu não devia estar ao volante.

– Devia ter-te impedido.

– Não podias – Giulia afirmou, pousando uma mão fria no joelho dele. – Eu fugi, como a cobarde que sou. Não te culpes, imploro-te…

Vicente limpou as lágrimas e pousou a palma no sítio onde a mão de Giulia o tocava.

– Vem comigo  – ele pediu, o rosto iluminando-se quando ela se levantou e lhe estendeu a mão.

Juntos caminharam pelas ruas do cemitério, cruzando-se com aqueles que visitavam, ignorando-os à sua passagem. Notando um jovem de aspecto adoentado, Giulia observou a curiosidade nervosa que ele demonstrava em tudo o que o rodeava.

Nos seus passeios, Vicente e Giulia conversavam sobre aquele dia, sobre os planos de noivado, sobre o que poderia ter sido a sua vida em comum. Todos os dias esmoreciam um pouco, com a dor que não amainava a cada passo dado.

a dança sagrada

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