Nicolas limpou uma lágrima com a mão livre. Na outra, um pequeno ramo de malmequeres amarelos, a flor preferida da sua esposa, abanavam com a brisa.

Sentado num dos bancos de pedra esculpidos à entrada do mausóleo, descansava as pernas da caminhada cada vez mais difícil de executar.

Murmurou “Bom dia, meu amor” como era costume, após recuperar o fôlego e o bater frenético do coração acalmar o suficiente para o pronunciar. “Em breve” acrescentou, voltando a limpar outra lágrima.

A idade e a doença comiam-no por dentro. Tiravam-lhe as forças. O cabelo cinzento, cada vez mais baço, os olhos encovados e as rugas profundas anunciavam que, em breve, voltaria a ver o seu amor. Não desejava nada mais do que isso. Apenas temia as consequências da debilidade corpórea.

Aceitara que não faria muitas mais visitas ao local de descanso eterno da sua amada esposa. A separação final, antes de se unir a ela para sempre.

Ao longe, um homem duns trinta anos era o reflexo daquilo que Nicolas havia sido nos primeiros dias após a morte dela. O luto, visível em cada movimento do corpo. Uma cópia do seu sofrimento, nos primeiros dias, em que a dor quase fora demasiada para suportar.

Nicolas voltou o rosto para o mausoléu, passando as pontas dos dedos sobre o nome entalhado na pedra. O seu ficaria por baixo daquele, tal como os ossos ficariam por baixo dos dela.

A morte já não o assustava. Nicolas sabia que, em breve, reunir-se-ia com a sua amada esposa. Desejava que a morte o viesse buscar. Depressa e, se Deus ouvisse as suas preces, pouco dolorosa. Em breve estaria com o amor da sua vida.

a dança sagrada

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