Etienne inspirou fundo, enfiou as mãos nos bolsos das calças de ganga, tentando conter o tremor que lhe percorreu o corpo. Do lado de fora, o cemitério Père-Lachaise tinha ares de jardim citadino, contido atrás dum enegrecido muro de mármore.

Com um sorriso no rosto, contemplou por uns minutos as quatro tochas embutidas na fachada, o único elemento vertical para além das enormes portas brancas, no meio das várias formas circulares que decoravam a entrada. Tudo eram círculos, como ciclos da vida que se renovam e terminam no ponto exacto onde haviam começado.

Demorou-se a observar as pessoas. Novos, velhos e crianças, turistas e autóctones. O trânsito constante de gente que faz o cemitério emergir do esquecimento para onde os locais dolorosos são relegados pela consciência humana. Père-Lachaise fugia do desconsolo da solidão, do ambiente dos eternos abandonados, mesmo se por curiosidade ao invés de homenagem.

Passou os portões com um arrepio, vendo-se rodeado por algo que o coração não entende, e a mente não sente. Avançou a passos largos pelas ruas de mármore branco-sujo e calçada negra. Corvos grasnavam, por entre frondosas árvores e cheiro a flores, o vento era uma melodia suave que o acompanhava na viagem habitual entre tumbas e mausoléus.

Cortou caminho entre os monumentos funerários, trepando lancis de pedra e pisando ervas, que cresciam nas passagens estreitas. Alguns minutos de caminhada colocaram-lhe um rubor no rosto. Chegou à zona, que pouco tinha de turística, onde um velho de rosto tombado e alguns malmequeres na mão fazia aquilo que Etienne nunca seria capaz de fazer. Não por ele, nem por si mesmo. Já não continha lágrimas para derramar por aquele condenado.

A cada dia, o impacto do primeiro vislumbre da tumba do pai fazia-se sentir nos ossos. Parou, a uns metros da cova, procurando controlar o turbilhão de emoções… apagar o riso amargo que nunca ia embora.

Não compreendia porque continuava a vir ali. Após o funeral, Etienne iniciara o ritual que ainda mantinha, dois meses depois. A princípio, justificara-o com a necessidade de enfrentar o que fizera. Agora, era apenas um rio de emoções. Culpas e erros, violência e memórias tingidas.

Aproximou-se e, a cada passo, o vento revolteava-lhe os cabelos louros e rugia como se fosse a sua dor, trazendo ecos do passado… os sussurros daqueles que já não estavam entre os vivos. Parou aos pés do monte de terra, perto dos restos mortais do monstro que lhe matara a mãe e que, por sua vez, encontrara o mesmo fim nas suas mãos.

O vento soprava e os gemidos de dor da irmã encheram-lhe os ouvidos, acompanhados pelo som do gatilho com que ripostara. O sangue da mãe tingia-lhe as mãos, as lágrimas da criança ensopavam-lhe a camisa, e o estupor ressonava no sofá. Atou-o, enchendo o cabrão de chumbo. Não tinha lágrimas para verter, nem por ele, nem pelo monte de merda que jazia naquela cova.

Etienne ergueu o rosto para o céu com um sorriso nos lábios. Fechou os olhos. Certo que, para ele, nunca haveria paz.

a dança sagrada

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