Escrevi na minha carne com tinta de sangue, e só parei quando a pena secou.

— Vais destruir-nos — dizia o anjo, amargura nos seus olhos, censura na sua voz — Vais destruir-te.

Observei-o com olhos negros, sem íris ou pupila.

— Eu destruí-me quando rasguei os infernos e incendiei o mundo com os fogos que a brecha vomitou. Eu destruí-vos quando desfiz os portões dourados dos céus em mil pedaços. Nada mais resta em mim, Gabriel, além de gravar os meus pecados na pele.

Ele pousou uma mão pálida sobre o meu ombro, queimando-me com o toque da sua retidão.

— Ainda não é demasiado tarde, Lux. Redime-te.

Ri-me na sua cara, envergando o meu escárnio como uma armadura. Só podia rir ou chorar, e nunca fui dado a melancolias.

— Eu destruí tudo o que existe, e que alguma vez existirá. Matei anjos e demónios, e todos os filhos da humanidade. Nunca alguém teve crimes mais negros. Mil anos não chegariam para eu me redimir, nem sequer a eternidade. Pergunta ao teu deus, pergunta-lhe se me perdoa.

O rosto do anjo contorceu-se numa máscara de tristeza.

— Eu não ouço a sua voz. Desde que os céus caíram que deixei de o ouvir, e o seu silêncio devora-me por dentro como um verme numa maçã.

Contorci-me num espasmo involuntário perante a comparação.

— Sempre a maçã, como vocês gostam de simbolismo. Sabes porque não o consegues ouvir?

Nenhuma mudança no seu rosto etéreo, mas senti o seu desconforto. Conseguia cheirá-lo à medida que me aproximava, encostando os meus lábios rachados aos seus ouvidos perfeitos.

— Porque eu o matei.

A dor emanou do seu corpo como uma coisa viva, e pela primeira vez desde a sua criação eu ouvi Gabriel gritar. Desembainhou a espada flamejante, tão carregada de fúria e justiça, mas a minha mão foi mais rápida, a minha lâmina mais afiada.

A morte de um anjo é diferente da de qualquer outra criatura. O seu corpo é a alma tornada carne, inseparáveis na vida e na morte, e quando o seu fim chega nada deixam para trás além do manto que envergam.

Sentei-me, cruzei as pernas e espetei a pena na língua. Consegui algumas gotas, suficientes para um nome de sete letras, e no fim admirei a minha obra.

— Terias ficado orgulhoso, velho amigo — disse para mim mesmo já que mais ninguém restava para me ouvir.

Contemplei longamente o nome que tomava forma em linhas finas e sinuosas, revoltas na sua elegância. Eram letras, mas eram também imagens que contavam uma história. Um enigma. Uma pintura. Uma obra de arte gravada a vermelho na palma da minha mão.

— Foste a minha melhor criação.

Pousei a pena uma última vez e suspirei, enquanto à minha volta a própria realidade se fragmentava.

— Só lamento que não sobre ninguém para escrever o meu nome — murmurei, brincando com o punhal entre os dedos — A crónica do fim do mundo, escrita numa caligrafia de violência, para sempre incompleta.

Uma caligrafia de violênciaImagem: Samuel Pereira
http://xpsam.deviantart.com/

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