A primeira vez que Raquel a vira, não tinha ainda oito anos. Olhara o espelho e ela olhara-a de volta. Tinha visto o reflexo antes, mas antes o reflexo era um reflexo e, a partir daquele momento, o reflexo deixara de ser dela e tornara-se na outra. Raquel não sabia o que se alterara. Talvez tivesse sido o beijo, aquele juntar de lábios que o vidro frio lhes permitira. Talvez tivesse sido a profundidade do olhar, quando se concentrara nas íris vivas e cinzentas. Num e noutro, algo se remexera, e o reflexo pareceu-lhe outro. Algo não dela.

Um dia perguntou quem ela era.

“Avó, quem é aquela mulher?”

Tinha já quinze anos. Nem ela nem a mulher do espelho eram ainda mulheres, mas o corpo, o corpo sim, o corpo era-o. E Raquel via apenas o corpo. As feições. As expressões que a outra mimicava. Para ela, a outra era mulher.

“Ó Raquel, que é isso, estás a brincar com a tua avó?” protestara a senhora. “Aquela és tu, quem havia de ser?”

Quem, de facto, havia de ser? Não podia ser ela. Raquel não se admirava, mas admirava aquela mulher. Sentava-se com a porta do armário aberta, enfrentando o espelho comprido e a mulher que a observava do outro lado. Erguia a mão e a outra imitava-a. Fixava a mão que a superfície do outro lado demonstrava. Morena dos dias na praia. Unhas bonitas e cuidadas, num azul-eléctrico que provocava. Dedos longos de pianista. Era bonita, aquela mão. Mas não era dela. Era da outra.

E a outra era tão bonita. Tão bela no seu silêncio, na sua mímica. Poderia admirá-la até se tornar num narciso. Mas não. Narciso errara: olhara, apenas. Não quisera mais. Raquel queria, olhar não bastava, precisava de mais, de desejar e de tocar. Esticou o braço, aproximando a mão da mão da outra. Os dedos tocaram a superfície fria, gelada como há anos atrás estava quando a beijara.

E perturbaram-lhe a quietude. Círculos formaram-se, alargando-se a partir do epicentro da sua mão. Os sentimentos sobrepuseram-se: surpresa, receio e confusão. Retirou os dedos, como que fugindo do queimar de uma braseira. O espelho acalmou e regressou à sua solidez. A mulher fixou-a de olhos arregalados como os seus. Mexeu os lábios quando ela os mexeu e ergueu-se quando ela se ergueu. Aproximaram-se, até a ponta do nariz se confundir.

E mergulharam. Raquel na mulher, e a mulher na Raquel. O frio envolveu-a, sugou-a, reclamou-a. Rodopiou e deixou-se rodopiar, até parar. Sem brusquidão ou agressividade, mas Raquel caiu, os joelhos no chão, as palmas das mãos à sua frente, evitando o confronto da face com o chão.

O coração saltava-lhe no peito. O sangue galopava pelas veias.

“Onde estou? Onde estou?”

Ergueu a cabeça, e logo a seguir o corpo. Era o seu quarto: invertido. A esquerda na direita e a direita na esquerda.

Novamente:

“Onde estou? Onde estou?”

Um suspiro esvoaçou atrás de si. Virou-se, e a mulher virou-se com ela. Estava no seu quarto, o corpo colado ao espelho, como o seu estava. Os lábios próximos, belos, ternurentos. Beijou-a e beijou-se. O vidro quente recebeu a carícia, pois ainda assim não se podiam tocar. A mulher afastou-se, e Raquel afastou-se. Sorriu e Raquel sorriu.

Mas a mulher já não era a mulher, era Raquel. E Raquel já não era Raquel, era a mulher.

A mulher virou as costas quando Raquel virou as costas. Caminhou quando Raquel caminhou. Abriu a porta e saiu. Raquel para o desconhecido. A mulher para o nada. “Quem é aquela mulher?” perguntara um dia. “Quem é esta mulher?” perguntava agora. Não era Raquel, não era um fragmento, não era um reflexo. Mas era também tudo isso. Duas palavras a ancoravam e salvaguardavam. Não traziam descanso nem conforto. Traziam dúvida, desconforto e temor. Mas traziam, o que era melhor que trazer nada: “Quem sou?”

girl-at-mirror

Anúncios