Kazue posou o enorme pepino no chão e ficou a contemplar os nomes gravados na casca. Tinha inscrito, com a ponta da navalha, todos os quarenta e três habitantes da aldeia. Faltava lançar o pepino às águas do rio.

– Terminei, Kitsune-sama.

A yokai aproximou-se da criança e analisou o pepino.

– Sobe – ordenou, ao mesmo tempo que se baixava.

Kazue obedeceu, pegou no Aiko e montou o dorso da Kitsune.

– Vou-te levar até o rio, Kazue-san. A partir daí o resto depende de ti.

A yokai ergueu-se e iniciou, de novo, uma corrida desenfreada pela floresta. Kazue voltou a fechar os olhos, evitando o enjoo.

A enorme raposa prateada correu por entre as árvores e arbustos até chegar à orla da floresta, perto da aldeia da jovem humana. Abrandou a marcha e Kazue abriu os olhos.

A aldeia estava ainda embrenhada em escuridão total. Faltava pouco mais de uma hora para o nascer do sol.

Avançaram pelas ruas até chegarem às docas. Kazue saltou do dorso da Kitsune e aproximou-se dos barcos dos pescadores. As águas do rio estavam calmas, não havia qualquer sinal dos Kappa.

– E agora, Kitsune-sama? Atiro-o à água?

– Sim.

A menina posou Aiko no chão e aproximou-se da margem.

De súbito, um ser encorpado saltou das águas do rio e atirou Kazue ao chão. O embate fê-la largar o pepino, que rebolou para longe. Antes que tivesse tempo de se levantar, já o Kappa estava sobre ela, abrindo a boca, pronto para a arrastar para a água.

Um mar de chamas douradas passou a poucos centímetros do rosto de Kazue, atingido o Kappa. Aproveitando, ela esgueirou-se da criatura rebolando pelo chão. Levantou-se e olhou em volta, à procura o pepino.

Vários Kappa surgiram das águas do rio para se juntar ao primeiro, avançando na direcção da criança e da Kitsume. Incapaz de fazer frente a tantos adversários, a raposa prateada abria a boca e cuspia labaredas douradas, tentando manter as criaturas afastadas.

Com o corpo a tremer, Kazue correu para as docas. Procurava o pepino, mas não havia sinal do vegetal gigante. Ouviu um miar assanhado e virou-se na sua direcção. Um dos Kappa atacara Aiko. O gatinho, com o pêlo coberto de sangue, soltava miares agudos. A sua cauda estava bifurcada devido ao golpe da criatura.

Kazue correu em direcção a Aiko e apanhou o bichano atemorizado do chão. Sangrava e o seu corpo tremia.

A alguns metros de distância, vários Kappa tinham rodeado a Kitsune, que se via agora encurralada pelas criaturas. Os yokai do rio saltaram sobre o dorso da raposa e atiraram-na ao chão. Ela tentava afastá-los a todo o custo, cuspido fogo e cravando os dentes na pele escamosa dos atacantes.

Foi então que Kazue o viu. Caído no interior de um pequeno barco de pesca, estava o pepino gigante.

Kazue encheu o peito de ar, e com Aiko ao colo, correu em direcção ao barco. Três Kappa saltaram das águas do rio e bloquearam-lhe o caminho, lançando-se sobre a criança.

Aiko saltou do colo e lançou-se sobre os yokai em defesa da menina. O gatinho lançou-se pelo ar, e o seu corpo de Aaumentou de até ficar do tamanho de um tigre. O seu pêlo cinzento cresceu e cobriu-se de listas negras. Os caninos superiores cresceram e sobressaíram da boca como duas facas afiadas prontas a trespassar quem se atravessasse no caminho. O dorso do felino, as patas e a cauda bifurcada cobriram-se de chamas azuis que brilhavam na escuridão da noite.

O Nekomata rugiu e atingiu um dos Kappa com as suas garras, rasgando-lhe o ventre. Num ataque rápido, cortou ao meio outro dos atacantes com os enormes caninos.

Kazue correu para o barco e saltou para o seu interior. Pegou no pepino gigante e atirou-o às águas do rio.

Todo aquele caos parou quando o pepino tocou na água. De um momento para o outro, todos os Kappa paralisaram. Paralisaram, como estátuas vivas. Para surpresa de Kazue, as criaturas afastaram-se de Aiko e da Kitsune, voltaram-lhes as costas e regressaram às águas do rio.

Kazue ficou de pé, no barco, a observar. Aguardou que todos os Kappa tivessem regressado ao rio antes de se juntar a Aiko e à Kitsune.

Ao aproxima-se do imponente Nekomata, este voltou a transformar-se e assumiu a forma do gatinho de que Kazue tanto gostava. A menina baixou-se pegou no bichado, acariciando-lhe a cabeça. A ferida na cauda sarara, mas ficara com ela bifurcada.

– E agora, Kitsune-sama?

– Enquanto viver pelo menos uma das pessoas cujo nome estava inscrito no pepino, os Kappa irão deixar a tua aldeia em paz, Kazue-san.

– E o Aiko?

– O golpe na cauda transformou-o num Nekomata, um caçador feroz. Vai ser teu guardião até ao fim dos seus dias.

Kazue olhou para o horizonte. Os primeiros raios de sol começavam a surgir.

– Obrigado por tudo, Kitsune-sama.

– Não te esqueças de honrar a tua parte do acordo.

– Não esqueço – prometeu, inclinado a cabeça em sinal de respeito.

A raposa de pêlo prateado respondeu à saudação e afastou-se a correr, desaparecendo por entre as árvores da floresta.

Kazue contemplou, por momentos, as águas do rio. Tão calmas, tão cheias de mistérios. Com Aiko ao colo voltou para casa. Ainda era cedo, os pais e irmãos certamente que ainda não tinham dado pela sua falta.

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