De olhos muito abertos, Kazue fitou a sua salvadora. A Kitsune olhava para a criança com ar curioso. Os longos pêlos prateados que lhe cobriam o corpo reflectiam a pouca luz que havia e as suas nove felpudas caudas esvoaçavam pelo ar. Jamais se esqueceria da majestosidade da criatura que a observava com aqueles olhos vermelhos, repletos de curiosidade e sabedoria.

– Obrigado – agradeceu Kazue, inclinado a cabeça em sinal de respeito.

A Kitsune aproximou-se da criança, cheirando-a com o seu nariz negro na ponta do focinho. Andou em círculos em torno da pequena humana até que se sentou à sua frente, fitando-a nos olhos.

– Preciso da sua ajuda, Kitsune-sama. A minha aldeia corre um grande perigo.

– Diz-me o teu nome – a ordem ecoou numa voz feminina e distante na cabeça dela.

– Kazue.

– Poucos são os que se atrevem a aproximar-se de mim, Kazue-san. Mas a coragem parece ser algo que corre no sangue da tua família. Esses olhos relembram-me alguém que conheci há muito tempo…

– Você ajudou o meu avô.

– Sim.

– Pode-me ajudar também a mim, Kitsune-sama?

– Os Kappa voltaram para o rio. Queres afastá-los da tua família e da tua aldeia.

– Sim – confirmou Kazue. – Você ajudou o meu avô no passado.

– Fizemos um acordo, sim.

– Por favor, ajude-me, Kitsune-sama.

A yokai manteve os seus olhos penetrantes fixos na criança, avaliando a situação.

– Kazue-san, farei contigo o mesmo acordo que fiz com o teu avô. Mas ficas já avisada, o que te vou ensinar, se assim concordares, não vai proteger a tua gente eternamente.

– Farei o que for preciso.

– Numa colina para lá desta floresta, crescem pepinos gigantes, mais longos que o braço de um homem. Escreve na casca do pepino o nome daqueles que queres proteger e atira-o ao rio. Enquanto houver alguém da lista com vida, os Kappa deixarão a tua gente em paz – explicou a Kitsune. – Em troca da minha ajuda, na primeira lua cheia de cada mês, deves trazer-me oferendas à floresta e dizer orações em meu nome. Caso não cumpras a tua palavra, a tua família será amaldiçoada para todo o sempre.

A menina inclinou a cabeça em sinal de respeito.

– Tens a minha palavra, Kitsune-sama.

A enorme raposa prateada deitou-se no chão em frente de Kazue.

– Sobe.

Kazue agarrou Aiko contra o peito e sentou-se no dorso da Kitsune. O pêlo da yokai entre os seus dedos era tão macio que parecia seda.

– Agarra-te bem.

Kazue teve de se agarrar com todas as forças ao mesmo tempo que tentava não largar Aiko. A Kitsune movia-se a uma velocidade estonteante, fazendo com que as árvores da floresta não fossem mais do que borrões que passavam por eles. Ao seu colo, Aiko cravou as unhas no braço da criança, soltando miares de agudos à medida que avançavam pela floresta. Kazue sentia o estômago às voltas. Fechou os olhos à paisagem que passava a correr.

Sentiu a yokai parar e se deitar-se no chão, deixando-a descer do seu dorso. Só aí Kazue voltou a abrir os olhos.

Estavam numa pequena clareira no interior da floresta, rodeada por altas árvores centenárias. Por entre a vegetação rasteira, a criança viam uma plantação de pepinos selvagens, atingindo tamanhos que não julgava serem possíveis.

– Escolhe um – ordenou a Kitsune.

Kazue posou Aiko do chão e avançou pela clareira, inspeccionando os vários pepinos. Precisava de um suficientemente grande para escrever o nome dos quarenta e três habitantes da aldeia. Percorreu a clareira duas vezes até se decidir.

– Este, Kitsune-sama.

A raposa prateada aproximou-se do pepino de quase um metro de comprimento e arrancou-o para a humana. De seguida, deslocou-se até ao outro lado da clareira. Escavou e desenterrou um pequeno punhal que trouxe na boca.

– Usa este punhal para raspar os nomes na casca.

Kazue pegou no punhal e aproximou a ponta da lâmina da casca do pepino. Aos poucos começou a gravar os nomes dos habitantes. Primeiro escreveu a sua família e foi avançando para os vizinhos. Sentada a poucos metros de distância, a Kitsune aguardava que a criança concluísse a tarefa.

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