A floresta era húmida e escura. As árvores pareciam debruçar-se sobre Kazue, fechando-se sobre a sua cabeça. Avançava lentamente por entre a vegetação, tendo cuidado para não tropeçar nas raízes e troncos espalhados pelo chão. Atrás de si, Aiko andava aos pulinhos, alheio a tudo o que o rodeava.

Kazue já perdera a noção do tempo. Estaria a caminhar há uma hora, duas? Não fazia ideia. Doíam-lhe os pés e estava a ficar com frio.

Quando achou que não aguentava mais, sentou-se num rochedo que jazia ali na floresta. Aiko saltou de imediato para o seu colo a ronronar.

– Talvez seja só uma lenda – desabafou enquanto acariciava o gatinho. – Ou talvez a Kitsune já não viva nesta floresta.

Aiko soltou um miar.

– Sim, tens razão. É melhor voltar para casa.

Levantou-se com o gatinho ao colo e preparou-se para fazer o caminho de volta. Na escuridão, procurou o trilho que a levara até àquele rochedo na floresta. Afastou a vegetação rasteira com os pés, rondou algumas vezes a rocha, mas o atalho tinha desaparecido. Tentou evitar que o pânico tomasse conta de si e, desorientada, avançou naquela que julgava ser a direcção certa.

Os pés levaram-na através da floresta por um caminho onde a vegetação ficava cada vez mais alta. Apercebendo-se do erro, tentou voltar para trás, para junto do rochedo, não conseguia encontrar o trilho. Estava perdida.

Incapaz de continuar, Kazue deixou-se cair de joelhos no chão e chorou. Queria ajudar a sua família e a sua aldeia, mas agora ali estava ela, sozinha na floresta, perdida e sozinha.

Um barulho na vegetação fez com que Aiko saltasse do seu colo e se lançasse em corrida por entre as ervas altas.

– Aiko! Espera! – chamou enquanto se punha de pé, seguindo no encalço do gato. – Volta para aqui Aiko! Vais-te perder!

            Kazue travou abruptamente quando as ervas desimpediram o caminho. À sua frente estava um pequeno lago, e o seu gato brincava junto à margem com uma rã, batendo-lhe com a pata na cabeça.

            – Não voltes a fazer isso Aiko! Pregaste-me um susto! – protestou, voltando a pegar no bichano.

Inesperadamente, as águas do lago agitaram-se e, perante o olhar incrédulo de Kazue, uma bizarra criatura subiu para a margem. Tinha quase o seu tamanho, o corpo revestido por escamas de um verde amarelado, e uma cara que fazia lembrar um misto de um réptil com um mamífero, com grandes e penetrantes olhos negros.

Assustada, Kazue começou a retroceder, afastando-se da criatura. Movendo-se sobre as quatro patas, cujos dedos estavam ligados por membranas, o Kappa começou a avançar em direcção à criança. Estava a apenas uns dois metros quando se ergueu nas patas traseiras com um ar ameaçador.

Kazue recordou-se então do que ouvira o pai contar aos irmãos: “A melhor maneira de parar um Kappa é cumprimentá-lo curvando a cabeça.”

A menina inclinou-se para a frente e saudou a criatura. O Kappa estacou de imediato, e para espanto de Kazue, inclinou-se para a frente e cumprimentou-a, derramando um pouco da água que trazia na depressão no topo da cabeça.

Por momentos, a criança julgou estar em segurança mas, mal terminou o cumprimento, o Kappa voltou a avançar, obrigando-a a recuar. Kazue voltou a cumprimentar a criatura, mas com os nervos, não reparou numa raiz que saia do chão da floresta e tropeçou. Desamparada, caiu de rabo ao chão.

O Kappa soltou um uivo estridente e lançou-se sobre a criança.

Um mar de chamas douradas atingiu a criatura, fazendo-a recuar. Kazue tapou a cara com as mãos, protegendo os olhos do calor e da repentina claridade.

O ser voltou-se para ver quem era o atacante, mas antes que pudesse reagir, voltou a ser atingida por uma coluna de chamas.

Aflita, Kazue levantou-se e desatou a correr para o meio da vegetação. Atrás de si podia ouvir o Kappa soltar rugidos de dor enquanto o seu corpo era queimado por aquelas estranhas chamas.

Os bramidos cessaram.

Sem fôlego, Kazue parou e apoiou as mãos sobre os joelhos. Tentou acalmar o seu pequeno coração, que batia acelerado no peito.

Um miar tímido fez a menina voltar-se para trás.

– Aiko, tu estás bem! – exclamou ao ver o gatinho a seu lado, abraçando-se a ele.

Não se apercebeu de que algo se aproximava pela vegetação. Apenas viu a sombra da criatura que a observava quando parou de acariciar o gato.

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