Kazue olhava com ar entristecido para a lua que espreitava por entre as nuvens através da janela do quarto. Estava fechada em casa há quase uma semana, os pais e os irmãos não a deixavam sair, com medo que algo lhe acontecesse. Estava proibida de abandonar a casa e de se aproximar das margens do rio.

O pai, Kaito, tentava esconder da filha o que se estava a passar na aldeia, porém, encarcerada na própria casa, ela tornara-se perita em escutar as conversas dos outros. Não demorou para que a pequena filha do pescador soubesse o porquê de tanto reboliço e preocupação. Lembrava-se bem da noite em que o irmão mais velho, Daisuke, chegara a casa com as terríveis notícias.

– Apanharam um! – exclamou ao entrar de rompante em casa.

– O quê? De que estás tu a falar? – questionou o pai.

– Tinhas razão. O rio está cheio de Kappa. Um deles ficou preso nas redes de um barco.

– Ainda está vivo? – perguntou Kaito, levantando-se de imediato.

– Sim, mas não sei por quanto tempo. Querem matar o yokai na praça como vingança.

– Maldição! Venham comigo, rápido! – ordenou correndo para a porta, seguido de perto pelos dois filhos.

Ausentaram-se umas três horas. Nessa noite, Kazue não parou de fazer perguntas à mãe sobre os yokai e sobre os Kappa. Contudo não viu a sua curiosidade satisfeita, já que esta se esquivava à maioria. Tudo o que descobriu resumia-se a que eram criaturas antigas e perigosas que viviam nos rios e lagos.

Nessa noite, quando o pai e os irmãos regressaram, Kazue já estava deitada. Julgavam que dormia, pelo que conseguiu ouvir a conversa dos adultos na divisão ao lado.

– Mataram-no? – perguntou a mãe.

– Tentei impedi-los, mas não consegui – respondeu Kaito. A desilusão estava em patente no tom de voz.

– Pai, ele matou um de nós. Qual é o problema de se matar o yokai?

– Os Kappa vivem em grupos. Os outros, vão vingá-lo.

– Como é que sabe isso? – questionou Ryo.

– Quando eu tinha a idade da vossa irmã, os pescadores da aldeia mataram acidentalmente um Kappa que vivia no rio. Muita gente morreu.

– Como é eu se livraram deles? – perguntou Daisuke.

– O meu pai chegou a um acordo com eles e as criaturas partiram.

– Que tipo de acordo?

– Não sei… Mas diz-se que ele seguiu o conselho de uma sábia Kitsune.

Desde essa noite que Kazue não conseguia deixar de pensar na história do avô, e de como ele se livrara dos Kappa, com ajuda de uma Kitsune. Infelizmente, as previsões do seu pai tornaram-se reais nos dias que se seguiram. Irados com morte do companheiro, os yokai começaram a atacar os pescadores, chegando mesmo ao ponto de arrastar pessoas que caminhavam nas margens do rio para as suas profundezas. Os corpos davam às margens mais tarde, sem fígado e completamente drenados de sangue.

Uma tarde, Ryo fora atacado por uma das criaturas. Escapou por pouco. Não fosse a ajuda do pai e de Daisuke, e também ele teria sido puxado para o fundo do rio. Kaito não queria assustar a pequena Kazue, pelo que contara em segredo o que acontecera à mulher. Infelizmente, não contou que a rapariga estivesse de ouvido encostado à parede a escutar a conversa dos pais.

Pé ante pé, a menina aproximou-se da porta do quarto e entreabriu-a. Estavam todos a dormir. Avançou em silêncio para a sala e para a porta da rua. O pai e os irmãos tinham-na bloqueado com um tronco para impedir a entrada das criaturas. Conseguiu entreabri-la o suficiente para passar por baixo do tronco. Atravessou a brecha e saiu. Estava uma noite fria e enevoada. Kazue sabia o que tinha de fazer.

Preparava-se para se afastar da casa quando foi alertada por um miar. Olhou para trás. Sentado à porta, com um ar curioso, estava o pequeno Aiko.

– Shiu! Não podemos fazer barulho, Aiko. Temos de encontrar a Kitsune que vive na floresta. Ela vai saber ajudar-nos.

O gatinho miou em resposta.

– Está bem, também podes vir. Mas não faças barulho e tens de prometer que me obedeces.

Aiko levantou-se e começou a roçar-se nas pernas da menina ronronando.

Kazue baixou-se e pegou no gato ao colo, acariciando-lhe a cabeça. Com ar determinado, dirigiu-se para a floresta que ficava na orla da aldeia.

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