O vento soprou e as pétalas rosa esvoaçaram pelo ar. Caíram sobre a erva verde do solo, cobrindo-o como um leve manto de neve rosa. Sentada à beira do rio, Kazue observava as cerejeiras em flor. A menina de dez anos adorava ir até às margens do rio naquela altura do ano. A paisagem envolta por aquele mar rosa deixava-a calma e feliz. Como é que algo podia ser tão belo?

Ao seu lado estava o pequeno Aiko, o fiel companheiro. O gato cinzento e com ar traquinas, corria por entre as pétalas caídas, atirando-se ao chão para aas fazer esvoaçar. O felino dava saltos acrobáticos no ar, tentando caçar as preciosas presas imaginárias. Com um salto mal calculado, acabou por cair de costas, levantando-se muito rapidamente com ar atarantado.

Kazue riu-se perante as palhaças do bichano. Sentia-se feliz, como já não se sentia há muito tempo. Voltou o olhar para o largo rio e para as águas calmas. Pequenas embarcações de madeira, espalhadas ao longo do curso, enfeitavam a paisagem. Num dos barcos mais próximos, dois pescadores atiravam as redes à água. A menina conhecia-os bem. Viviam a três casas de distância da sua, o senhor Takahiro e o filho, Yuuki. Era capaz de dizer o nome de todos os pescadores que estavam ali. Eram todos da pequena aldeia piscatória onde vivia, situada um pouco mais acima no leito do rio.

Colocando a mão em frente dos olhos para tapar a luz do Sol, procurou sinais do pai e dos irmãos, Ryo e Daisuke. Viviam da pesca, e os dois irmãos mais velhos já ajudavam o pai no seu ofício.

Avistou-os numa pequena embarcação com três homens que flutuava nas águas do rio. Recolhiam as redes repletas de peixe a bordo do barco.

Kazue sorriu. A pesca parecia ter corrido bem. Pelo que conseguia ver as redes estavam cheias. Já com estas no interior, a pequena embarcação aproximava-se das margens do rio.

– Vamos Aiko, vamos ter com eles – chamou, desatando a correr em direcção à aldeia. – Despacha-te!

O gato parou abruptamente ao aperceber-se de que a criança se afastava. Deu duas miadelas para o ar e lançou-se no seu encalço.

Kazue só parou quando alcançou a pequena embarcação. Sentia o coração aos saltos e estava ofegante. Levou a mão ao torso, tentando ignorar as picadas de dor resultantes do esforço.

O pai e os irmãos puxavam as redes para fora do barco, no seu interior ainda havia peixes a saltitar, numa luta pela vida. Aiko aproximou-se sorrateiramente, tentando lançar as garras sobre algum peixe que escapasse.

– Hoje a sorte sorriu-nos, Kazue – declarou o pai, aproximando-se da filha e afagando-lhe a cabeça. – Não me lembro a última vez que apanhámos tanto peixe.

– Eu sabia que hoje ia correr bem!

– Ai sim? E como sabias, filha?

– O dia corre sempre bem quando vejo as cerejeiras em flor.

Kaito riu-se com gosto.

– Nesse caso resta-me esperar que vejas as cerejeiras em flor por muito tempo, minha pequenita!

– Kazue, tira daqui esta peste! Está a roubar o peixe todo! – protestou Daisuke a apontar para o gato.

Aiko lançou um olhar suplicante à dona. Trazia na boca um pequeno peixe que conseguira roubar de entre as redes.

– Vamos Aiko, vamos para casa. Não te quero a roubar comida.

O gato cinzento soltou um miar triste.

– Não sejas queixinhas! Vamos, eu deixo-te levar esse.

Kazue começou a afastar-se do barco, seguida pelo felino de peixe na boca. Olhou de relance para o rio e viu uma pequena barca de madeira a flutuar. Não se via ninguém a bordo, mas esta oscilava de uma forma estranha.

– Ajudem-me – pediu uma voz rouca, tão baixa que se tornava quase inaudível.

– Quem está aí? – perguntou a menina, levantado a voz em direcção à embarcação.

A resposta veio em bramidos de aflição.

– Socorro! Por favor, alguém me ajude!

Todos os presentes no pequeno porto viraram a cabeça em direcção aos gritos. Uma pequena embarcação aproximava-se do cais e, no seu interior, um homem coberto de sangue gritava.

Correram todos para o pequeno barco e ajudarem a puxá-lo para o cais. Curiosa, a menina seguiu-os.

Formou-se uma pequena multidão em torno da embarcação. Kazue teve de furar por uma muralha de gente até conseguir ver o que se passava. Sentado na embarcação, coberto de sangue e agarrado a um corpo desfigurado, estava o senhor Itsuki, um velho amigo do pai.

– O que se passou? – perguntou alguém.

– O meu filho, o meu filho… – lamentava-se o homem por entre soluços.

– Itsuki, o que é que aconteceu? – perguntou o pai de Kazue.

– Eles voltaram, Kaito. Passado todo este tempo, eles voltaram…

Se o medo tinha rosto, esse era certamente o do pai de Kazue. A menina jamais se esqueceria do terror espelhado na expressão do velho pescador. Em toda a sua vida, nunca vira o pai temer o que quer que fosse.

– Ryo, pega na tua irmã e leva-a para casa.

– Mas e o peixe?

– Faz o que eu te digo!

Ryo agarrou Kazue pela mão e puxou-a para longe do local.

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