Deslizo de baixo da cama, alastrando através do chão, para o meio do quarto. O quarto, mesmo com a luminosidade ténue de uma luz de presença, está escuro, como me convém.

Ergo-me, alongando-me em direcção ao berço, onde o bebé dorme tranquilamente. A luz de presença enfraquece-me um pouco, mas não de modo a que me impeça de fazer o que me trouxe aqui esta noite.

Debruço-me, em silêncio absoluto, sobre o bebé. Que pacífico que ele está, totalmente alheio ao que se vai passar daqui a pouco. Tão frágil, e ao mesmo tempo tão belo. Ele repousa sereno, de respiração leve, soltando um pequeno suspiro… Para garantir que não acorda, toco-lhe suavemente com a ponta de uma garra. Assim que o faço, um pouco da minha sombra, um pouco de mim, alastra sobre ele. Ele estremece por um momento e logo continua a dormir o seu sono profundo.

Ouço um ruído no corredor. Passos muito ligeiros, quase inaudíveis, mas não me conseguem surpreender. Não a mim.

Ele tem uma faca, claro. Não que lhe vá servir de alguma coisa, pois não vai conseguir ver-me. Mas eu vejo-o a ele. Para mim a luz de presença, por muito pálida que seja, é quase como um holofote. Permite-me vislumbrar os olhos irrequietos e o ar desgrenhado, enquanto sonda o quarto.

Debruça-se sobre o pequenino, murmurando o que reconheço como uma canção de embalar. Ainda não se apercebeu da minha presença, embora sinta que algo não está bem. Olha em volta e hesita, antes de retomar a canção, e quando o faz, fá-lo com menos convicção. Mas não conseguiu distinguir-me do resto das sombras do quarto. Óptimo.

Ergue a faca, que reflecte a luz de presença, e prepara-se para cometer o seu acto hediondo. Precipito-me sobre ele, antes que ele tenha tempo sequer de aproximar a lâmina do bebé. Rasgo-lhe a laringe, para que não grite. Não quero que a mãe da criança acorde. Não ainda.

Enquanto o sangue jorra, o assassino brande a sua arma à toa, tentando atingir algo que não vê. Algo que não consegue perceber, mas que o está a atingir no escuro. Eu.

Agarro-lhe o antebraço direito e corto-lhe, com outro golpe, os tendões que lhe permitiam fechar os dedos. A faca cai. Continuo a golpeá-lo, de novo e de novo e de novo, com uma velocidade que ele não consegue apreender. Tem os olhos arregalados, está em pânico. Finalmente, abro-lhe o abdómen e ele cai, ainda a espernear, enquanto emite sons borbulhantes com a laringe cheia de sangue. No seu estertor, atinge com um pontapé uma caixa onde estão brinquedos guardados. Alguns deles, com o impacto, começam a tocar músicas alegres, que destoam bastante do cenário do quarto. O ruído acaba por acordar a mulher no quarto ao lado. O bebé, sob a minha influência, nem se mexeu.

Aplano-me contra o chão e escapo novamente para baixo da cama onde me fundo com as outras sombras. Custou-me localizar o assassino, e mais ainda antecipar a sua jogada desta noite, mas é com satisfação que penso que ele nunca mais vai fazer mal a nenhum bebé. A ninguém, na realidade.

Enquanto me dissolvo lentamente na escuridão e volto para o meu mundo, penso no que se vai passar a seguir. Dentro de momentos, a mãe vai entrar no quarto e deparar-se com o serial killer morto. A única coisa que vai acalmá-la, e mesmo assim, só ligeiramente, será a constatação de que o bebé está ileso. Aflita e confusa, vai chamar a polícia e depois vai ligar ao marido, o qual se encontra fora do país em trabalho.

A polícia vai encontrar a porta da cozinha arrombada e reconhecer o modus operandi do assassino – usar uma faca da cozinha da própria casa para matar um bebé durante o sono.

A única confusão será sobre o que acabou com o miserável, já que ele parece mutilado por um animal de grande porte. De qualquer modo, não acredito que se vão importar muito. Provavelmente farão apenas uma investigação simbólica, mais por obrigação do que por vontade, antes de arquivarem o caso.

Entretanto, o pai do bebé vai voltar e confortar a mãe…

Sempre que limparem o espaço por baixo da cama do filho, vão fazê-lo na ignorância de que foi esse mesmo espaço que me permitiu o acesso ao quarto, na noite em que finalmente consegui caçar o monstro. É irónico, normalmente pensam que eu é que sou um monstro. Só por ser como sou. Rir-me-ia disso, se eu soubesse rir. Usam-me para impor medo às crianças pelas quais eu velo. O meu nome é sinónimo de terror para elas; tanto mais que a imprensa baptizou o assassino com o meu nome… O serial killer que agora jaz no chão do quarto… Aquele a quem os jornalistas chamaram “O Papão”.

A Sombra no Quarto

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