Acordou.

Não sabia onde estava.

Não estava em casa.

Não estava no jardim.

A visão entregava-lhe uma paisagem turva e acastanhada, mutante, na qual se rasgavam, em intervalos regulares, pedaços de céu e nuvens. Tentou alcançar uma posição vertical, mas as sub-rotinas queixaram-se que os micro-robots auto-reparadores ainda não tinham finalizado a tarefa. Havia danos extensos, provocados por séries de embates enquanto estivera desligado.

Luz verde, por fim. Ascendeu. As águas do Tejo davam-lhe pelos calcanhares. As juntas estavam perras e corroídas. Cada movimento era uma agressão abrasiva. Olhou para baixo e observou o banco de areia dourada, reflectindo a luz do sol que se punha, projectando uma longa sombra que mais parecia uma noite antecipada. Seguiu a linha de terra onde encalhara até se deparar com o logotipo colorido d’A Terra da Alegria. Havia já um ano que o Pedro tinha pedido aos seus pais para que o levassem ao parque de diversões construído na ilha artificial em frente a Lisboa. Tudo indicava que era ali que estava, embora não pudesse ter a certeza. O sistema GPS estava desligado. Não. Não era a palavra correcta. Arrancado, sim. Um buraco no ombro esquerdo era a testemunha. O Vítor também tinha um buraco no ombro esquerdo. Uma cicatriz do tempo em que era apenas uma criança com velocidade a mais e juízo a menos, de quando as bicicletas se pareciam com as motas que se viam na televisão e um ferro-velho uma pista de acrobacias.

Tentou estabelecer ligação com o telemóvel de Vítor, que nessa hora devia ainda estar no trabalho, confiando que o seu andróide doméstico estivesse a fazer as lides caseiras na moradia de Santarém. Nada. Não havia registo do número. Tinha sido apagado há uns dias atrás. Percorreu a lista de contactos telefónicos: Vítor Frazão, <vazio>, Ana Ferreira Frazão, <vazio>, Pedro Frazão, <vazio>, casa, <vazio>, SOS, <vazio>, Fábrica, <vazio>. A lista de moradas encontrava-se igualmente desolada. Um barco da polícia passou ao largo. Um conjunto de algoritmos dentro de si entrou em histeria. Os alarmes de auto-preservação dispararam em uníssono. Embora não conseguisse determinar a razão, os cálculos heurísticos apontavam que se fosse apanhado pelos humanos dentro daquele barco, ser-lhe-ia quase impossível chegar a Santarém a tempo de preparar o jantar para a família que cuidava.

Num salto, mergulhou de novo no rio, para longe das ordens que seria obrigado a acatar por programação. A corrente não era forte e os barcos que passavam eram demasiado lentos para surpreender a máquina humanóide. De vez em quando, emergia à superfície, para verificar a rota em linha recta até ao Cais das Colunas. O barco rasgava a superfície, descrevendo espirais em torno da ilha artificial, mas o andróide já ia longe. Emergiu um pouco ao lado do seu destino, na ribeira das naus, e desfez-se das roupas rasgadas e enlameadas. Antes de as deitar fora, analisou-as cuidadosamente, determinando se havia salvação possível ou se os remendos seriam mais caros que uma farda nova. Concluiu a segunda hipótese. Uma passagem rápida pelos chuveiros instalados pela câmara municipal para servir as praias do Passeio Marítimo e retomou a sua cor creme acinzentada, igual a tantos outros andróides da capital. Aproveitou para se confundir com eles, mergulhando na multidão que voltava a casa.

Calculou a distância de Lisboa a Santarém. Cerca de 78 km a pé, 82 km de carro. No passe intermodal tinha apenas 2€, mal dava para uma viagem de autocarro. Não ia chegar a tempo de ir buscar o pequeno Pedro à escola. Seria a primeira vez que iria faltar a um compromisso. Os anúncios publicitários ao longo do Passeio iluminaram-se ainda antes do sol desaparecer, não fosse alguém perder os importantes apelos ao consumo. Um deles captou a atenção do andróide, que estacou em frente a ele. Para os humanos, tinha um apelo “nestas férias, não abandone o seu andróide”; para as máquinas, uma mensagem invisível que os compelia a voltar à fábrica no caso de terem sido deitadas fora.

O andróide inseriu novos dados na programação. Não. Não estava perdido. Não fora abandonado. Porque haveria de ser abandonado? O Vítor e a Ana nunca haviam mostrado sinais de descontentamento com o seu serviço. Pelo que calculara, tinham um grau de satisfação acima de 95%. Excepto nas últimas semanas, em que descera para 45%. Tal não era devido a falhas suas. A causa residia no lançamento para o mercado de um novo modelo, com maior poupança de energia, mais poder de processamento, mais realista. O novo modelo também parecia aumentar o status social de quem o possuísse, embora o andróide não percebesse como computar esse dado. A máquina entrou no autocarro que o levaria um pouco mais perto de Santarém, afastando-se da ordem de voltar à fábrica. Estava praticamente vazio, pelo que o robot não teria de se deslocar para o compartimento de cargas sencientes como de habitual. Pela primeira vez desde que fora ligado poderia usufruir da paisagem da viagem. No seu cérebro de sílica, os cálculos eram outros. O estado apoiaria a compra de um novo modelo com 25% do valor caso a família não tivesse nenhum andróide. Ora, a família já tinha um andróide! Não iria deitá-lo fora sem razão aparente. Porque é que a sua família desperdiçaria o ser que cuidava do filho quando os pais não tinham tempo, que brincara com o bebé para os pais terem algum descanso… Ele conhecia os padrões de desenvolvimento do Pedro, os gostos culinários de Vítor e Ana, as rotinas diárias… O novo modelo não seria capaz de iterar nada sequer perto disso nas primeiras semanas. Não havia nenhuma razão para o abandonarem. Não havia nenhuma razão para o terem abandonado. Não havia nenhuma razão para o atirarem ao rio, despindo-o dos meios para voltar para casa. Não havia nenhuma razão….Havia?

As luzes passavam rápido, em clarões que deslizavam sobre os vidros do autocarro. Um novo anúncio saltou à vista: “Compre um andróide em segunda mão. Limpeza de memórias anteriores 100% garantida”. O andróide procurou o disco interno de memórias e executou todos os ficheiros ao mesmo tempo. Algo dentro de si parecia não funcionar bem, embora todos os sistemas se mostrassem operacionais. Passou diante de si as caras sorridentes da sua família. Eles nunca seriam capazes de o abandonar. Não tinha dados estatísticos que apoiassem a sua conclusão. Eram apenas fotos e contracções musculares que revelavam a dentição, não eram garante de ética. A avaria fantasma parecia aumentar de volume. Tocou no botão de STOP e o autocarro parou na paragem seguinte, onde o andróide saiu. Consultou o mapa afixado ao lado dos horários. Virou costas a Santarém. Os passos dirigiram-se automaticamente para o posto de vendas de andróides mais próximo. Todo o resto da capacidade de cálculo desviou-se para o diagnóstico da estranha avaria que não aparecia em nenhum manual. À falta de ligação à Internet, socorreu-se da experiência pessoal. Em todos os milhares de horas da sua vida, só um diagnóstico se adequava à sua avaria.

Nas palavras de Ana, “tens o coração partido”.

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Imagem: Ricardo Cabral
http://ricardopereiracabral.blogspot.pt/

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