Não queria brincar. Queria acordar, abrir os olhos, sair dali. Fugir das pequenas mãos gélidas que lhe tocavam o rosto, da voz de menina que a cortava por dentro, do peso daquele corpo sobre o peito, que a impedia de respirar… de gritar.

Estava presa, sem conseguir abrir os olhos, sem poder fugir, sem ar. Presa num pesadelo real. Faltavam-lhe as forças, não conseguia esbracejar, afastar de si o que a pressionava, o que a consumia. Desistia de se libertar quando o abanão a trouxe de volta ao quarto.

A senhora dos cabelos grisalhos falava, mas Maria não entendia nada. A respiração acelerada, o terror de querer acordar e não conseguir, a presença constante da voz de criança. Cravou os dedos nos braços que se estendiam à sua frente.

– Já passou, Mamuska. Estás segura. – a mulher murmurou, apertando-a contra o peito.

Maria encostou o rosto à camisa azul clara do uniforme da senhora dos cabelos grisalhos, não contendo os soluços.

– Já passou. Foi só um sonho. – repetiu, afagando-lhe o cabelo.

– Não, não passou. Nunca vai passar.

– Mamuska, acalma-te. Vou buscar uma coisa que te vai fazer sentir melhor. – afirmou, levantando-se da cama e saindo do quarto a passos largos.

– Nunca vai passar. Nunca vai desaparecer. – Maria repetia, envolvendo o torso nos próprios braços, embalando-se sem cessar.

– Tu sabes o que fizeste. – a menina relembrou.

– Eu sei o que fiz. Nunca vai desaparecer.

– Tu fizeste-me desaparecer, mas eu não quero desaparecer. – as palavras soavam, numa voz carregada da doçura da infância.

– Não vais desaparecer. O que te fiz vai ficar comigo. – Maria confirmou.

– Fico aqui contigo… Para sempre, mamã.

– Não! – gritou Maria.

A boneca de trapos estava deitada no seu colo. Os braços e as pernas eram cepos enegrecidos, um negrume que se espalhava pelo torso. Os olhos eram os dois pontos negros que reluziam.

Maria deitou a mão ao copo de água, estilhaçando-o na ponta da mesa-de-cabeceira. Agarrou um dos pedaços de vidro e espetou-o na boneca. Arrancou cada pesponto negro que lhe prendia os membros. Rasgou cada linha que unia os bocados. Desfê-la em tufos de algodão solto. Retalhou-a em pedaços, cada contorno, cada fio de cabelo. E, no fim, arrancou-lhe os olhos, esquartejando-lhe a cara.

A enfermeira correu para onde o corpo jazia, curvado sobre as poças de sangue, e gritou por socorro. A pele de Maria estava arruinada por inúmeros golpes indistintos, bocados levantados do escalpe, o rosto desfigurado, os buracos ensanguentados no sítio dos olhos. Numa mão, segurava o pedaço de vidro que usara para se retalhar.

Sentada, sobre a mesa-de-cabeceira, a pequena boneca de trapos brancos e pontos em linha preta. Encostada ao candeeiro. As linhas, que formavam a boca, desenhando um sorriso rasgado.

trapos vivos

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