– Ai! – queixou-se, chupando a pequena gota de sangue que brotava da ponta do dedo indicador.

Maria espetava alfinetes no pequeno corpo de trapos brancos. A cada ponto dado pela agulha podia libertar os pequenos espigões, enfiá-los na pregadeira em forma de boneca, enquanto via a camisola ganhar forma. As pequenas flores cor-de-rosa, pontilhadas de verde e amarelo, cobriam o tecido de algodão creme. Um pingo de sangue manchou o tecido. Largou-o de imediato, voltando a chupar o dedo. Quando os seus olhos recaíram sobre o padrão colorido, este jazia embebido numa poça de sangue, no seu colo.

Abriu os olhos para as sombras que avançavam pelo quarto. Sentou-se na cama, apertando a manta de lã azul contra o peito. Os ruídos dos outros propagavam-se através da porta entreaberta.

Alcançou o interruptor e empurrou o botão. Maria deu um pulo, com uma inspiração rápida. Ali, encostada ao pé do candeeiro de loiça, os dois pontos negros que eram os olhos da boneca de trapos brilhavam. Os membros eram cepos cinzentos, o tecido cada vez mais escuro. A ausência de boca não permitia que ela tivesse uma expressão facial, mas os pontilhados negros formavam a imagem que Maria imaginava. Lábios de cantos pendidos em tristeza… em dor.

– Brincas comigo? – a voz da sua menina soou aos ouvidos de Maria.

Maria abanou a cabeça em negação, fechando as pálpebras enquanto as lágrimas escorriam pelas maçãs do rosto.

– Vamos brincar. – implorou, com um fungar que se transformou em riso.

– Não. – murmurou Maria, cobrindo a face com as mãos.

– Porque és má para mim?

– Vai-te embora! Sai daqui! – gritou.

– És tão má para mim… – o murmúrio da menina desfazendo-se no ar, sobreposto pelo som da voz da senhora de cabelos grisalhos que repetia o seu nome.

– Tire-a daqui. – implorou Maria, recusando mostrar o rosto.

– Está bem, Mamuska. Levo-a comigo quando sair. – assentiu, enfiando a boneca no bolso da farda azul clara.

Maria destapou os olhos, recusando ver para lá do rosto enrugado da senhora de cabelos cinzentos.

– Porque está sempre aqui? Porque se preocupa comigo? – perguntou, vendo o azul dos olhos dela brilhar.

– É o que eu faço. – retorquiu, ajeitando a manta que cobria Maria.

– Mas… porquê?

– Toma isto e descansa, Mamuska. Não te preocupes com nada. Eu cuido de ti. – asseverou a mulher, entregando-lhe os medicamentos do costume.

Maria enfiou os comprimidos na boca, empurrando-os pela goela com meio copo de água, e pousando-o em cima da mesa-de-cabeceira.

– Dorme. – murmurou, fazendo-lhe uma festa no rosto.

Maria fechou os olhos mas o sono não vinha… não enquanto o eco da voz da menina permanecesse. Repetindo, sem cessar, “Vem brincar.”

trapos vivos

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