– Não estou! Não estou! – Maria deitou as mãos aos ouvidos. Sentada na beira da cama, o corpo movia-se para trás e para a frente, num embalo curto e incessante.

– Pronto, Mamuska. Pronto. – murmurava a senhora de cabelos grisalhos e olhos azuis claros.  Com um movimento rítmico, passava a mão pelas costas dela, não parando de repetir as mesmas palavras.

Os minutos corriam e ela começou a abrandar o abanar compulsivo, os olhos semicerrados e, por fim, colapsou sobre o ombro da mulher que a amparava. Com gestos delicados, a senhora deitou-a na cama e voltou a entalar a manta em volta do corpo.

– Descansa… – sussurrou. Observou-a por um bocado, notando o aprofundar da respiração, enquanto Maria se escapava para a inconsciência.

Maria esperava, em pé, junto à janela. A cor cinzenta enchia o céu, as árvores largavam folhas que rodopiavam no chão a cada passagem de vento. Lá fora, não se via ninguém, os bancos vazios, os jardins desertos. Todos os outros estavam concentrados nas salas comuns, a televisão berrava, e os que ali viviam amontoavam-se nas mesas de jogos.

– Hoje não podes ir, Mamuska. – a mulher afirmou, parando ao lado dela.

– Vai chover. – assentiu Maria, mantendo os olhos na linha do horizonte.

– Queres o teu casaco?

Negou com um curto aceno de cabeça, as pontas dos cabelos loiros roçando os ombros com o movimento. Gotas grossas aterravam nos vidros com um baque que se ouvia pela sala. Grandes massas brancas viajavam sob a tela cinzenta escura que cobria o seu precioso sol.

Ao longe, uma mancha clara contrastava com a tinta verde escura do banco. Maria franziu a testa, aproximou a cara do vidro e esforçou os olhos a focar o borrão. A confusão da noite anterior regressou, com uma dor pontiaguda nas frontes, levando-a a encostar os pulsos onde as picadas se adensavam. A boneca. A sua boneca de trapos.

Rodou nos calcanhares e precipitou-se pela sala, percorreu o corredor, espreitou a espaçosa entrada e, sem a presença da mulher que a perseguia para todo o lado, abriu a pesada porta de madeira e saiu. Correu pelo caminho empedrado, os chinelos de algodão branco esguichando água a cada passo, a camisola castanha escurecendo sob as gotas fartas, e as finas calças de algodão ensopadas em segundos.

Parou junto do banco onde jazia o montículo de pano. Esticou o braço, hesitando por uns segundos, antes de lhe pegar. Os pequenos braços e pernas com uma coloração mais escura do que o resto do tecido, o corpo amorfo da boneca de trapos, agora mais pesado com a chuva.

– Maria! O que fazes cá fora? – a senhora corria, respirando com dificuldade. Empunhava um chapéu-de-chuva e um casaco de lã.

– Nada. – ela respondeu, enfiando o pequeno monte de trapos na manga da camisola.

– Assim vais adoecer, Mamuska! – alertou, puxando Maria para debaixo do chapéu, e enrolando-a no tecido que carregava.

A senhora puxou a camisola de Maria, fazendo-a passar pela cabeça, e deixou-a cair no chão com um barulho pesado. A testa enrugada contrariava a gentileza dos seus olhos, enquanto a embrulhava em toalhas, esfregando a chuva e o frio da frágil figura. Os ossos salientes sob a pele alva do pescoço, os finos braços pendidos sobre o colo, as mãos esguias envolvendo um monte de trapos brancos pespontados a negro.

– O que tens aí? Ah! Encontraste a tua boneca…

Maria acenou com a cabeça, olhando o pequeno corpo de trapos pela primeira vez, desde que o apanhara no jardim.

– Está encharcada! Secamo-la com isto. – a mulher afirmou, bramindo o secador de cabelo.

Maria permaneceu quieta, enquanto o ar quente lhe enxugava o cabelo e, depois, a boneca. Observava a boneca, procurando recuperar aquilo que bailava nos limites da sua consciência. Uma voz de menina… não estava sozinha. Sem encontrar nexo nas memórias, assentiu a qualquer coisa que a senhora disse, apercebendo-se que ela saía do quarto.

– Pára de olhar para mim!

A voz de criança trazia o medo de volta, e Maria atirou a boneca contra a parede, levantando-se num pulo.

– É o que fazes sempre, não é?! Magoas-me sempre. – a voz de menina entrando na sua cabeça. Maria tapou os ouvidos com as mãos, começando a murmurar uma canção de embalar, abanando o corpo para a frente e para trás.

– O que se passa, Mamuska? – a senhora de cabelos grisalhos perguntou. Precipitou-se sobre Maria, tentando que ela baixasse os braços e se sentasse na cama.

– Canta para mim. – a menina pediu, rindo.

O grito de Maria ecoou pela casa. Apertou mais as mãos sobre os ouvidos continuando a entoar a canção de embalar, agora mais alto, enquanto se deixava cair sobre os joelhos e se enrolava sobre si mesma.

trapos vivos

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