Engoliu em seco. Não hesitaria em usar a faca, na qual os dedos estavam crispados com toda a força, se pressentisse sequer um movimento perto de si.

Encontrou, por fim, uma das molduras. No entanto, quando os dedos tocaram o tecido da tela, este transpirava uma humidade quente. A mão recuou por instinto, até junto do peito. Cheirava a sangue.

Num impulso de medo e ousadia, Selena cerrou os dentes e atacou o retrato com toda a força. A lâmina perfurou a base da madeira e encravou, quase lhe fugindo da mão quando a tentou recuperar. Depois de a arrancar, voltou a rasgar a tela, não lhe interessando o rosto ou paisagem que assassinava.

– Pára, por favor! – implorou Nikolai, perto do seu ouvido. – Estás a matar-te e não sabes se…

As palavras foram abafadas por um grito de dor, quando um puxão nos cabelos a fez tombar para trás. A mão manejava a faca, cortando o ar sem encontrar carne ou tecido do atacante.

– Larga-me! – gritou, sentindo que a arrastavam pelos cabelos. A mão livre tentou agarrar o chão, mas escorregou numa substância morna que até há um segundo não estava ali. Mais sangue, mas como?

De um momento para o outro deixou de sentir o chão e foi arremessada escadas abaixo. As arestas salientes dos degraus atacaram-lhe o corpo em múltiplos pontos, antes de aterrar no hall com um gemido de dor. De ouvido encostado ao soalho, o som de um bordão a bater em madeira fê-la erguer o olhar, atordoada. A chama fraca de uma vela lançou sombras assustadoras sobre o rosto enrugado que a olhava da porta.

– Lidiya… Lidiya, ajuda-me! – pediu, tentando levantar-se. No entanto não foi capaz de mexer uma das pernas cuja dor era insuportável.

A idosa não abriu a boca, passando por si com uma estranha pressa, dentro da sua lentidão, para desaparecer num corredor escuro que dava para a antiga ala dos empregados. O afastar da chama era como o afastar da sua esperança de salvação.

– Nikolai – deixou escapar, por entre um soluço. – Amor?

Silêncio. Tentou mover-se, arrastando-se em direcção à porta aberta. Contudo não chegou sequer a meio do caminho quando uma mão lhe prendeu o pescoço. As luzes reacenderam-se com um estalido e ficaram a vacilar tempo suficiente para o rosto desfigurado, acocorado ao seu lado, a observar. A lâmina da faca que ela deixara cair pelo caminho aproximou-se da base do seu pescoço.

– Por favor – sussurrou. As mãos agarraram as dele. Contudo a força de vontade dos mortos é cega.

Num terrível déjà vu, recordou-se da faca a rasgar-lhe a pele e cortar a carne até à traqueia. Sentiu de novo o toque frio da lâmina, a ameaça da morte. Gritou e tentou afastá-lo de si com um pontapé da perna sã. Ele nem sequer reagiu.

Os braços começaram a vacilar. A ponta de arma feriu-a à superfície, num ardor quente, e um fio de sangue escorreu até ao soalho.

– Nikolai… – soluçou.

A mão que lhe agarrava os cabelos libertou-a de súbito, deixando a sua cabeça tombar. Selena agarrou-se à garganta mal pôde, escudando-a da agressão que a ameaçava. Ao longe, pareceu-lhe escutar a voz do seu amor. Abriu os olhos. Nikolai agarrava o pintor contra si, combatendo a ânsia dele de a alcançar.

As pancadas do bordão regressavam aos poucos. Lidiya parou à entrada do hall, trazendo debaixo do braço uma caixa comprida forrada a couro. Atirou-a ao chão sem cuidado. Com o tombo a caixa abriu-se e o conteúdo saltou do interior: pincéis, imensos pincéis, e frascos de tinta seca. Com um arquejar, a velhota baixou-se, aproximou a chama da vela dos pêlos dos pincéis e pegou-lhes fogo.

Sem aviso, o espírito contorceu-se como um louco nos braços de Nikolai. Um guincho repercutiu-se pela mansão e estremeceu os vidros, estilhaçando-os e arrancando parte deles dos caixilhos. Selena e Lidiya taparam os ouvidos com força, todavia o grito infiltrava-se até nos ossos.

O irmão prendeu-o a si o melhor que conseguiu, o rosto contorcido pelo esforço sobrenatural. Quando dos pêlos dos pincéis sobravam somente cinzas, o espírito desvaneceu-se.

Selena cruzou o olhar com Nikolai, contemplando-se sem palavras. Ela ainda sentia a presença da criatura pairar, assombrando-os.

– Ela tem de sair daqui se não a queres ver morta, irmão. A casa precisa de ser destruída, com todos aqueles quadros.

As chamas começavam a devorar a caixa e o soalho, e o calor suplantava o frio da noite. Selena baixou as mãos da garganta e, com a ajuda da anciã, levantou-se, apoiada no cajado retorcido que lhe fora estendido.

O espírito de Nikolai não se atreveu a mover na direcção delas. Os lábios moveram-se, sem emitir qualquer som, no entanto Selena conseguiu perceber o que diziam.

– Eu perdoo – murmurou, sem desviar o olhar dele, apesar de Lidiya a puxar na direcção da entrada. – Perdoo tudo, Nikolai!

Ele sorriu, agradecido. Depois de um último olhar, voltou-lhe as costas, subindo as escadas até desaparecer de vista.

Pouco tempo depois, as chamas tomaram posse da mansão. Os retratos arderiam; nada mais prenderia fosse quem fosse àquele lugar.

Junto ao portão da sua casa, Lidiya amparava Selena que, de lágrimas nos olhos, tremia como varas verdes. Enquanto as labaredas iluminavam a noite, a anciã rezava por entre os dentes para que aquelas duas almas encontrassem paz no Outro Mundo.

Quando, horas depois, o fogo se extinguiu, a jovem sentiu um abraço invisível aconchegá-la contra o corpo que não se via e não conseguiu conter um soluço que lhe estremeceu até a alma.

– Serei o teu anjo da guarda – sussurrou-lhe Nikolai ao ouvido, antes de o abraço se desvanecer.

Pintado a Sangue

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