Deu um salto e desferiu um golpe para trás. A faca cortou nada mais do que o ar. Olhou em volta, atarantada, o coração quase a querer sair-lhe pela boca. Estaria a imaginar coisas?

– Podes entrar, Selena. Esta casa é tua, este é o teu quarto – notou a voz, passando através da porta. Reconheceu-a como sendo a mesma da noite anterior, a de Nikolai.

Lembrou-se do que a velhota lhe dissera, de que não deveria falar-lhe. Recuou um passo, contudo percebeu que, se ele lhe quisesse realmente fazer mal, teria tido tempo na noite anterior. Para além disso, a voz dele era tão calma que parecia acarinhá-la mesmo sem lhe tocar.

Rodou a maçaneta e deixou a porta deslizar para trás, silenciosa. Sentado a uma secretária, com meia dúzia de folhas nas mãos, ele sorriu-lhe. Perto de si estava uma caixa aberta, com muitas mais dentro.

– Estava a recordar-me das cartas que te escrevia – disse, baixando o olhar para os papéis manchados. – E de algumas que tu escrevias mas não tinhas coragem para enviar. Sei que não te lembras de nada disso, já passaram tantos anos…

Não soube o que dizer, ficando a olhar aquele estranho homem. Não lhe parecia uma aparição de outro mundo; na verdade aparentava ser até bastante corpóreo.

– Não compreendo – concluiu, dando um passo para ele. Na fotografia que Lidiya lhe mostrara, e que a assustara tanto, ambos estavam de mãos dadas e olhavam-se, com sorrisos apaixonados.

– Pois não. Todos os quadros desta casa foram pintados com o teu sangue, e isso prende-te à carne e guia-te a este local – comentou, muito calmamente, antes de ver a expressão de horror dela. – Não fui eu que os pintei! E quem me dera ter chegado a tempo de o evitar.

– O que é que me estás a tentar dizer?

Nikolai soltou um suspiro e estendeu-lhe as cartas. – Lê. Talvez assim te recordes.

A medo, Selena pegou nas cartas. Reconheceu a caligrafia como sendo a sua e, à medida que as linhas fugiam do papel, a jovem visualizava os sentimentos além das palavras, enquanto recuava sessenta anos atrás. A tarde foi passando, sem que ela fosse capaz de largar as folhas.

– Conhecemo-nos em crianças. Os meus pais serviam em tua casa e por isso brincámos e crescemos os quatro juntos: tu, a Lidiya, eu, e o meu irmão gémeo, o Aristarkh. A Lidiya casou e enviuvou jovem, sem ter hipótese de gerar. O Aristarkh e eu partimos para a capital para estudar pintura e literatura, respectivamente. Foram os teus próprios pais que nos pagaram os estudos, já que não havia outra forma de conseguirmos ter acesso a eles. Quando regressámos, já homens feitos, eu tornei-me o teu professor particular, já que pouco mais sabias do que escrever toscamente. Quanto ao Aristarkh, disse que viria só para passar um tempo, ganhar inspiração para os seus novos quadros, encontrar uma musa – resumiu.

Selena levou uma mão à boca, recordando-se da flor, do bilhete sobre a mesa e da tinta que se esborratara ao toque, lembrando sangue.

– Eu era a musa – sussurrou, levantando uma onda de pó ao sentar-se à beira da cama.

– Eras. A musa que o inspirava e que eu roubei – disse, simplificando o resto da história. – Mas ele quer-te de volta. Não sei em que consistiu o curso de pintura dele, mas aprendeu mais do que trabalhar com tintas.

Sem se dar conta, Selena levou uma mão à garganta, sentindo uma cicatriz invisível que a marcava.

– Ele degolou-te e sangrou-te quando ainda estavas viva – murmurou, fechando os olhos enquanto o rosto se contorcia num esgar de raiva. – E pintou, pintou cada um dos quadros desta casa. Quando a tinta acabou, matou-se. E não o pude evitar, porque também fui morto.

Selena parou de respirar por uns momentos. Lembrava-se do brilho da faca, da fuga fracassada que acabara com ela a tropeçar escadas abaixo, do puxar de cabelos que parecia querer arrancar-lhe o escalpe, do toque frio na garganta, do deslizar da lâmina na carne, da dor quente, quando os olhos se fixaram na porta por onde Nikolai entrava. Chegou a chamá-lo, mas foi só um gorgolejar com sabor a sangue que se escapou dos lábios, antes de a faca voar na direcção do peito do seu amado.

A mão que segurava as cartas vacilou, deixando que os beijos, os abraços, os segredos, as declarações e juras de amor se espalhassem aos seus pés. Apertou mais a garganta tentando conter o fluxo de sangue que não existia, tal como fizera no passado.

– Violetta, pára com isso! Não está a acontecer neste momento!

Nikolai levantou-se de um salto e correu para ela, abrindo-lhe os dedos e obrigando-a a libertar o próprio pescoço.

Com um soluço, o pânico começou a destilar-se do seu corpo e Selena encostou o rosto ao peito dele. A frieza que emanava era estranhamente aconchegante, depois de ele a envolver com os braços e a embalar um pouco. Uma carícia nos cabelos negros encorajou-a a voltar a descobrir o rosto. Respirou fundo três vezes, ao mesmo tempo que tentava organizar as recordações que a bombardeavam.

– Preciso pensar. – Massajou a fronte com uma mão. Na verdade, o que precisava era de fugir. Contudo as lembranças que pertenciam a um outro “eu” do passado impediam-na de abandonar o seu amor, Nikolai. – Se, ao contrário de ti eu reencarnei, talvez seja de facto porque o meu sangue está preso naqueles quadros. Tu deves estar preso a este mundo porque eu continuo cá, a precisar que alguém me ajude. E o teu irmão… o que é que o prenderá? Talvez esteja também num dos quadros. Se os destruirmos…

– Não! – O olhar de Nikolai tornou-se feroz.

Mirou-o, incrédula.

– Como não?

– Eles são parte de ti, Violetta. O meu dever é proteger-te. Eu sei que é estranho. – Levou uma mão ao rosto, perturbado.

Selena respirou fundo. Não fazia ideia de que outra solução poderia haver, nem sequer se as suposições estavam correctas.

– Pois eu vou destruí-los – ditou, levantando-se.

Nikolai arregalou os olhos e, se já não fosse quase branco, teria empalidecido. A mão dele crispou-se no pulso da jovem.

– Não te atrevas! É o mesmo que matares fracções de ti.

– Aquilo são resquícios de outro corpo, não deste! O que interessa é o presente, não o passado. – Puxou o braço e escapou-se dele, correndo para porta e levando consigo a faca.

A luz vacilou quando Selena pisou o corredor e, por um instante, tudo ficou escuro. A tarde dera lugar à noite, enquanto lera todas aquelas cartas. Praguejou para si. A lanterna ficara para trás, e não conseguia sequer distinguir a entrada do quarto. Estendeu o braço e procurou a parede, sentindo a sua aspereza com as pontas dos dedos.

– Nikolai, estás aí? Ajuda-me a fazer isto, por favor – pediu, avançando um passo na escuridão. O coração comprimia-se contra as costelas e ela sentia como se, a qualquer momento, pudesse cair num buraco sem fundo.

Não houve resposta.

Pintado a Sangue

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